A concorrência entre aplicativos de delivery já aparece na rotina dos restaurantes, e o retrato vem da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel). No levantamento de abril de 2026, entre estabelecimentos que entregam por aplicativo, 99,1% usam o iFood e 23,1% já usam a 99Food, à frente de Rappi (2%) e Keeta (1,8%).
O número foi publicado pela revista Bares e Restaurantes e mede adesão de estabelecimentos, não participação em pedidos. Ele mostra em quantas plataformas o restaurante está cadastrado, e não quanto cada aplicativo vende.
O que mostra o levantamento da Abrasel sobre os apps usados pelos restaurantes?
O levantamento mostra em quais plataformas estão os restaurantes que entregam por aplicativo, e não quantos pedidos cada uma recebe.
Essa diferença muda a leitura do número, porque um mesmo estabelecimento pode estar no iFood e na 99Food ao mesmo tempo, e a soma dos percentuais passa de cem justamente por isso, o que indica que uma parte relevante dos donos de restaurante já opera em mais de um canal de venda.
| Plataforma | Estabelecimentos que usam o app (Abrasel, abril de 2026) |
|---|---|
| iFood | 99,1% |
| 99Food | 23,1% |
| Rappi | 2% |
| Keeta | 1,8% |
Lida pelo lado de quem vende, a tabela mostra um mercado ainda concentrado, com a 99Food como a única concorrente de presença ampla. Para o dono de restaurante, a pergunta deixou de ser se existe alternativa ao iFood e passou a ser se compensa operar uma segunda plataforma.
Também é preciso cuidado com a comparação.
Um restaurante cadastrado em dois apps pode vender quase tudo em um deles, por isso a adesão não informa onde está o faturamento de cada casa.
Por que a concorrência entre aplicativos de delivery ganhou força?
Duas mudanças ajudam a explicar a disputa, o limite à exclusividade do iFood e os cupons oferecidos pelos concorrentes.
Com menos restaurantes presos a contratos exclusivos, o estabelecimento ganhou liberdade para testar outras plataformas, e os novos apps passaram a disputar esse espaço com cupons e promoções para o consumidor, o que leva a concorrência entre aplicativos de delivery para dentro da gestão do restaurante.
Fim da exclusividade e o papel do Cade
O acordo firmado em 2023 entre o iFood e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) limita a exclusividade na plataforma.
Segundo nota do iFood publicada pela IstoÉ Dinheiro em 8 de março de 2026, a empresa não pode ter mais do que 8% de estabelecimentos exclusivos em cidades com mais de 500 mil habitantes.
O mesmo acordo proibiu o iFood de firmar novos contratos de exclusividade com redes de mais de 30 unidades, de acordo com a reportagem. Na prática, a regra deixa a maior parte dos restaurantes das grandes cidades livre para vender em mais de um aplicativo.
Para o dono do negócio, o efeito é direto.
Antes de aceitar qualquer condição especial de uma plataforma, vale ler se o contrato pede exclusividade e o que a casa deixa de ganhar ao abrir mão dos outros canais.
Comissões, cupons e a expectativa de custo menor
Os novos concorrentes chegam às cidades com cupons de entrada para o consumidor, segundo a reportagem da Bares e Restaurantes. O desconto atrai clientes para o app, mas quem decide se o pedido vale a pena é a conta do restaurante.
Do lado do custo, Paulo Solmucci, presidente-executivo da Abrasel, afirmou em setembro de 2025 que, com o iFood cobrando 25% dos estabelecimentos, a concorrência deve levar a taxas de 10%, 12% e 15% nas plataformas.
A fala é uma projeção da entidade, e não uma tabela de preços em vigor.
Para o restaurante, a concorrência entre aplicativos de delivery sinaliza espaço para negociar.
A comissão real de cada contrato continua sendo a referência, e ela precisa ser conferida no painel e no contrato de cada plataforma antes de qualquer decisão.
Estar em mais de um app resolve as vendas do restaurante?
Estar em mais de um app amplia o alcance do restaurante, mas o resultado depende de margem, cardápio e operação em cada canal.
Uma segunda plataforma traz um novo público e outra vitrine, porém também soma comissões, regras de promoção, painéis e pedidos simultâneos, e por isso a decisão precisa partir dos números de venda do próprio restaurante e da capacidade real da cozinha de atender mais de um fluxo sem atrasar entregas.
Vanfer Brito é fundador da GT Consultoria de Restaurantes e tem mais de quinze anos no mercado de alimentação, com experiência prática no iFood e na 99Food. A consultoria atende donos de restaurante que buscam melhorar vendas, margem e desempenho no delivery.
Ao comentar o avanço da disputa, o consultor afirma que “Estar em mais de um aplicativo abre espaço para vender mais, mas não resolve sozinho. O resultado depende de olhar os dados de vendas de cada plataforma, ajustar o cardápio e as promoções e cuidar da margem em cada canal.”
Ele também chama atenção para o que acontece depois do clique do cliente. “Vender mais no delivery não depende apenas de promoção. A operação precisa dar conta do pedido, com atendimento, entrega e experiência do cliente funcionando bem em qualquer aplicativo.”
Quando a segunda plataforma faz sentido
A segunda plataforma tende a fazer sentido quando o restaurante já tem a operação estável no app principal. Sinais disso são pedidos saindo no prazo, avaliações consistentes e uma margem conhecida por prato.
Nesse cenário, o novo app funciona como teste de público. O dono pode começar com um cardápio enxuto e acompanhar por algumas semanas se os pedidos novos pagam a comissão e o esforço extra.
Quando vários apps atrapalham
Vários aplicativos atrapalham quando a cozinha já trabalha no limite nos horários de pico. Pedidos simultâneos de canais diferentes aumentam o risco de atraso, erro de montagem e cancelamento.
Outro sinal de alerta é a falta de controle da margem. Se o restaurante não sabe quanto sobra de cada pedido no app atual, abrir um segundo canal multiplica a dúvida em vez de resolver.
Como comparar margem, cardápio e promoções em cada plataforma?
A comparação começa pelo lucro de cada pedido depois de descontar comissão, embalagem, insumos e custo de entrega em cada aplicativo.
Plataformas diferentes cobram de formas diferentes e repassam o dinheiro em prazos diferentes, e por isso a mesma venda pode deixar resultados distintos no caixa, o que obriga o restaurante a olhar cada canal como uma unidade de negócio própria, com números separados e metas separadas.
Comissão e prazo de repasse
A comissão e o prazo de repasse são os dois primeiros números que o dono precisa ter em mãos. Um passo a passo simples ajuda a montar a conta por canal.
- Anote a comissão e as taxas cobradas no contrato de cada plataforma.
- Registre o prazo em que o dinheiro de cada venda cai na conta.
- Some o custo de insumos, embalagem e entrega de cada prato.
- Calcule quanto sobra por pedido em cada app e compare os resultados.
- Confira no painel de cada plataforma o volume, o ticket médio e os cancelamentos.
O prazo de repasse pesa no fluxo de caixa.
Um canal com comissão menor, mas repasse mais longo, pode apertar o capital de giro de um restaurante pequeno, e essa conta precisa entrar na decisão.
Cardápio e promoção por canal
O mesmo cardápio nem sempre funciona igual em apps diferentes, porque o público e a vitrine de cada plataforma mudam.
Ajustar preço e composição por canal ajuda a proteger a margem quando a comissão é diferente. Promoções e cupons também pedem critério, já que um desconto que funciona em um app pode tirar todo o lucro do pedido em outro.
Um erro comum é replicar o mesmo cardápio e a mesma promoção em todas as plataformas ao mesmo tempo. Dessa forma, o restaurante perde a chance de entender qual canal responde a cada oferta e qual apenas consome margem.
O que a operação precisa para atender vários aplicativos?
A operação precisa de cozinha, atendimento e entrega organizados para receber pedidos simultâneos de canais diferentes sem atraso.
Na concorrência entre aplicativos de delivery, a experiência do cliente pesa tanto quanto o preço, e um pedido atrasado ou errado em qualquer app afeta a avaliação do restaurante, por isso a estrutura interna precisa estar pronta antes de abrir um novo canal de venda.
Ferramentas que centralizam os pedidos de várias plataformas em uma só tela ajudam a cozinha a seguir uma fila única. Processos simples, como um padrão de montagem por prato e um responsável pela conferência na saída, reduzem erros quando o volume cresce.
Alguns sinais indicam que a operação ainda não está pronta para mais de um app.
- Atrasos frequentes nos horários de pico no aplicativo atual.
- Falta de controle sobre quanto sobra de cada pedido.
- Cardápio sem ficha técnica e sem padrão de montagem.
- Equipe sem um responsável definido pelos pedidos dos aplicativos.
Para o dono de restaurante, a leitura do levantamento da Abrasel é prática.
A concorrência entre aplicativos de delivery abre espaço para negociar custo e vender mais, desde que a decisão de entrar em uma nova plataforma venha dos números do próprio negócio e de uma operação capaz de atender bem em todos os canais.

