Renda alternativa vira negócio lucrativo com venda de sacolés

Uma ideia repentina num momento de lazer se tornou um empreendimento de sucesso e hoje é responsável pelo sustento de dois sócios do Rio de Janeiro

Sacolé

“Se nada der certo, vou vender sanduíche natural na praia”. Quem nunca falou isso, muito provavelmente, conhece alguém que já falou. É uma das frases clássicas de quem está descontente com o trabalho ou perdeu o emprego e quer mudar de vida. E para muitas pessoas, pode ser uma semente do empreendedorismo plantada. Pois foi assim para os cariocas Patrícia Saback e Leandro Bergamo que, em 2014, durante um momento de lazer nas areias de Ipanema, viram na praia o ponto de partida para o início de um negócio. Só que, em vez de sanduíche, resolveram vender sacolés. Nascia o Sacolek.

Caso você não esteja familiarizado com o termo, muito tradicional no Rio de Janeiro, o sacolé – junção de “saco” e “picolé” – é conhecido ao redor do Brasil por vários outros nomes: chup-chup, geladinho, gelinho, dindim, flautinha, entre outros. E no caso de Patrícia e Leandro, a fonte de inspiração para a empresa que criaram tinha um nome ainda mais diferente: o tradicional “Sucolé do Claudinho”, o mais famoso da praia de Ipanema.

Uma ideia na cabeça

“Estávamos um dia em Ipanema e o Leandro comprou um sucolé. E aí eu tive um estalo, pois ele sempre cozinhou muito bem e eu dei a ideia de a gente vender sacolés na praia. Ele achou que eu estivesse brincando na hora”, diz Patrícia.

Após oito anos num mesmo emprego, Patrícia já vinha pensando em formas de conseguir uma renda extra, uma vez que a empresa na qual trabalhava passava por uma crise. E a ideia surgida na praia foi seguida de três meses de testes com variadas receitas de sacolés, antes da primeira incursão nas areias.

“Em fevereiro de 2014, fomos pela primeira vez para a praia. No começo, trabalhamos com seis sabores. No primeiro dia não tivemos uma venda legal. Foi bem fraquinho. Não desanimamos, voltamos no dia seguinte e já foi um pouco melhor. No final de semana seguinte vendemos ainda mais e a coisa foi melhorando”, lembra Patrícia, de 36 anos de idade.

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Patrícia Saback vestindo a camisa do negócio que criou em 2014 e do qual tira seu sustento (Crédito: acervo pessoal)

Patrícia Saback vestindo a camisa do negócio que criou em 2014 e do qual tira seu sustento (Crédito: acervo pessoal)

Inspiração e transpiração

A empreendedora é fã da marca que a inspirou a começar um negócio. E explica que, desde o início, a ideia não era entrar na praia como concorrente direto.

“O Sucolé do Claudinho é maravilhoso, tem muita qualidade. Recomendo muito e quando vou a Ipanema, inclusive, eu costumo comprar. Bato palmas para ele. Tem mais de vinte anos de mercado. Se fosse para bater de frente com ele, não teríamos grande sucesso. E justamente para não competir diretamente, pensamos em sabores alternativos. Eu queria ter algo diferente com essa empresa. Começamos com os sabores caipirinha (o único com álcool), piña colada sem álcool, Nutella, coco, doce de leite e paçoquita”, conta a empresária, que hoje tem 22 sabores no cardápio.

Até então, exceto pelo de caipirinha, todos os outros sacolés levavam leite na composição. E um “episódio chato” na praia fez com que Patrícia repensasse os sabores.

“Uma vez, uma mãe comprou um sacolé para ela, na frente do filho, que ficou sem por ter intolerância à lactose. Ela inclusive foi ríspida com a criança, que ficou chorando por não ter ganhado um. Vi na hora que precisávamos de uma receita sem leite e logo criamos o de morango”, diz Patrícia.

Mudança dos rumos do negócio

E além da necessidade de novos sabores, após apenas quatro meses de praia, Patrícia e Leandro perceberam que ficar à mercê do clima não levaria o negócio que criaram adiante.

Fazia sol durante toda a semana toda. Chegava no fim de semana e o tempo ficava ruim. Então, tive a ideia de fazer delivery

“Era horrível. Fazia sol durante toda a semana toda. Chegava no fim de semana e o tempo ficava ruim. Então, tive a ideia de fazer delivery. Com o diferencial da qualidade do produto, comecei a divulgar, criei as redes sociais e a ideia pegou. Aí, a Flavinha, dona do Up Dance Studio, gostou do Sacolek. Ela comprava sempre e recomendava. É um estúdio de dança muito famoso do Rio, especializado em pole dance e que tem muitos seguidores nas redes sociais. E isso deu um boom inicial para a gente”, relembra a empreendedora, que fez das redes sociais sua principal fonte de divulgação e captação de novos clientes.

Leandro, responsável pela produção de todos os sacolés vendidos pela empresa

Leandro é o responsável pela produção de todos os sacolés vendidos pela empresa (Crédito: acervo pessoal)

Com o delivery consolidado, os finais de semana de venda na praia foram deixados de lado e as tarefas foram ficando ainda mais divididas. Patrícia cuida da parte de vendas e divulgação, enquanto Leandro é o responsável pelo administrativo e pela produção. Para tal, estudou e se formou chef executivo pelo Senac.

Os dois fazem as entregas juntos, sempre nas noites de sexta-feira e cobrem um raio de 20 bairros da Zona Norte do Rio de Janeiro, além de Jacarepaguá. Apesar de estarem no bairro do Grajaú, a maior clientela dos sócios fica no Cachambi, na Tijuca e no Méier.

“Quando fizemos a cotação de um motoboy, vimos que os valores eram absurdos. Seria impossível não repassar isso para o cliente final. Nós mesmos entregamos e, no final das contas, adoramos fazer isso. Eu entrego na porta das pessoas e isso é legal, porque eu estou sempre em contato com os clientes. Dou um oi, um abraço. O que, no começo, foi o recurso que pensamos pela falta de estrutura financeira acabou virando um diferencial. Temos uma relação comercial com nossos clientes mas, no final das contas, em quase quatro anos de Sacolek, acabei criando relações de amizade com alguns deles”, diz a empresária.

Para movimentar as vendas, Patrícia usa e abusa das redes sociais. Faz promoções constantemente e conta com uma série de embaixadores da marca. Uma de suas principais ações é dar brindes para cada 100 unidades de Sacolek compradas. E um dos brindes mais usados é uma camisa inspirada numa clássica logo da banda de punk rock Ramones. Já foram tantas distribuídas, que volta e meia os fãs da marca postam fotos usando a camisa, até mesmo em outros lugares do mundo.

Leandro Carvalho, vocalista de uma banda carioca, é um dos fãs da marca, a ponto de usar a camisa em seus shows

Leandro Carvalho, vocalista de uma banda carioca, é um dos fãs da marca, a ponto de usar a camisa em seus shows (Crédito: divulgação)

O público-alvo

Segundo Patrícia, o público do Sacolek é formado majoritariamente por mulheres com filhos, na faixa dos 35 anos. Elas compram o produto para as crianças, acabam provando e gostando. Até porque, especialmente na Zona Norte do Rio, o sacolé mexe com a memória afetiva das pessoas. “Quem sempre morou nessa região certamente vai se lembrar de algum vizinho que vendia sacolé”, diz a empreendedora.

A empresa, que hoje está enquadrada no MEI (Microempreendedor Individual), nasceu de uma ideia súbita, que foi crescendo sem maiores planejamentos. De investimento inicial, apenas a compra de ingredientes para as primeiras produções e dos isopores para a venda na praia. Com o tempo, a estrutura foi aumentando um pouco mais.

“No começo, fizemos com o que tínhamos. Não sabíamos se ia dar certo. Usamos o congelador de casa, mesmo, só compramos um isopor. Logo depois sentimos a necessidade de comprar um freezer. Hoje, temos quatro freezers e uma geladeira. E o Leandro, que é quem produz tudo em casa, se mudou para um lugar com mais espaço, com uma copa e uma cozinha maior para ele trabalhar”, diz Patrícia.

Carrinho da Sacolek

Para pegar uma fatia do mercado de festas, a empresa investiu num carrinho (Crédito: acervo pessoal)

Foco em um novo mercado

Um dos principais investimentos do Sacolek, no entanto, foi feito em dezembro do ano passado: um carrinho para ser levado a festas e eventos. “Nunca quisemos ter loja, pelo custo fixo que isso geraria. Chegamos a ver a possibilidade no final de 2015, até para fazer a produção. Mas quando amadurecemos a ideia, veio a crise que já estava anunciada e realmente chegou em 2016. Vimos que não era o momento de ter essa despesa. Aí, em dezembro do ano passado nós lançamos o nosso carrinho para festas, que vem com cardápio, uma graminha e balões”, conta a empresária.

O mercado de festas, por sinal, é o grande objetivo da empresa.

“A gente vai fazendo tudo muito no feeling. Mas quero me profissionalizar e entrar com força nesse mercado, que é muito grande. O mês de novembro de 2017 já pode ser considerado o mais movimentado que tivemos. Queremos ter o máximo de datas possíveis fechadas com festas. Pois mesmo com crise as pessoas ainda fazem festas”, planeja Patrícia.

Com o negócio indo de vento em popa, a empresária revela uma grande preocupação: a má fé de pessoas que copiam a marca para vender produtos que não são o Sacolek de verdade.

“Durante esses anos, já tivemos empresas que copiaram tudo nosso; gente vendendo no Carnaval usando nosso nome; empresa que só muda uma letrinha para confundir o consumidor; gente que copiou nosso cardápio. E temos clientes muito fiéis que denunciam isso. Nós temos um registro da marca e acabamos entrando em contato, com um aviso feito por advogados. Mas nós somos pequenos. Não queremos processar ninguém. Só queremos ter a garantia de que as pessoas não vão comprar outra marca achando que é o Sacolek. Lidamos com alimento. Isso é muito sério. Por isso, deixamos sempre todos avisados que não temos revenda e que nós mesmos fazemos a nossa entrega. E é justamente para nos certificarmos. Eu não posso garantir a qualidade dos outros. Só posso garantir a minha”, finaliza Patrícia.

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