Adotado por brasileira, refugiado sírio empreende com food truck

Areen Hamshw chegou ao Brasil sem falar português e sem dinheiro. Foi adotado por uma família e hoje é dono do próprio negócio em Ponta Grossa (PR)

Bea e Areen com o food truck ao fundo

Bea e Areen com o food truck ao fundo (Crédito: acervo pessoal)

A tragédia humanitária causada pela guerra na Síria, que em março de 2018 completou sete anos, não se resume aos mais de 500 mil mortos em bombardeios e diferentes ataques. De acordo com a Organização das Nações Unidas, os confrontos armados forçaram 5,6 milhões de pessoas a deixar o país em busca de segurança e outras 500 mil a abandonar suas casas e viver como deslocadas dentro do território sírio. Em menor proporção do que algumas localidades da Europa, o Brasil vem recebendo ao longo dos anos muitos refugiados daquele país. E o jovem Areen Hamshw, de apenas 22 anos, foi um deles. Em julho de 2015, ele desembarcou sozinho em Ponta Grossa (PR) e hoje, três anos depois, após ser “adotado” por uma empreendedora local, tem um dos food trucks mais concorridos da cidade.

Refugiado sírio encontra um anjo da guarda

A família de Areen reuniu todas as suas economias para tirá-lo da Síria quando ele completou os estudos. Por lei, naquele momento, ele deveria se alistar no exército. E seus familiares não queriam mais um filho em perigo, uma vez que seu irmão mais velho já estava servindo. Ao chegar no Brasil, sem falar sequer uma palavra em português e praticamente sem nenhum dinheiro no bolso, se viu numa situação difícil. Mas a solidariedade da doceira Beatriz Fecci acabou mudando sua vida.

Com mais de 30 anos de experiência e empreendedora no mercado de doces para festas, Beatriz conheceu Areen por acaso, no estabelecimento em que ele trabalhou por pouco tempo assim que chegou no Brasil. Sensibilizada com a história do jovem sírio, resolveu abrigá-lo em casa, onde ele ajudava nas preparações para as festas que ela atendia.

“Ele veio me pedir abrigo. Sei lá o que passou pela minha cabeça. Eu só sabia que não podia deixar aquele garoto de vinte anos na rua”

“Eu o conheci num restaurante onde ele trabalhava. E um dia ele bateu na minha porta sem falar português direito, sem nenhum centavo no bolso e a roupa do corpo. As coisas não deram muito certo no local onde ele morava. E ele veio me pedir abrigo. Sei lá o que passou pela minha cabeça. Eu só sabia que não podia deixar aquele garoto de vinte anos na rua. É uma situação muito estranha. Até hoje eu olho para ele e fico imaginando como ele se sente. Porque a nossa relação hoje é de família. Nesses três anos que eles está aqui, é como se ele morasse desde sempre. Se adaptou muito bem”, conta Beatriz, que morava com os dois filhos, já adultos, e hoje considera Areen como um terceiro filho.

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Sonho de ter um food truck

Areen sempre falava do sonho de ter um trailer, mas o desejo de montar um negócio próprio aqui no Brasil parecia muito distante. Até que um amigo decidiu apostar no sonho do refugiado e levantou o capital inicial para os primeiros passos e para a compra de um food truck.

“Quando eu o conheci, ele ainda não falava português direito, mas mostrava trailers na rua. E dizia que queria ter um. Quando ele veio morar aqui, a gente falava: ‘um dia, quem sabe’. Mas sempre foi um sonho dele. Ele não queria ter outra coisa. Então, ele correu atrás. E acho que ele vai conseguir muito mais daqui para frente”, diz a empreendedora.

O veículo comprado com o dinheiro emprestado pelo amigo, no entanto, estava vazio e ainda precisava ser equipado.

O food truck

O food truck (Crédito: acervo pessoal)

Mais ajuda

Em mais um golpe favorável do destino, uma pessoa havia encomendado um veículo customizado a uma oficina especializada da cidade, mas desistiu do projeto e o dono vendeu os equipamentos por um preço muito convidativo. Com tudo resolvido, foi preciso apenas uma semana para que Beatriz e Areen abrissem o Areen Shawarmaria. O food truck era especializado em shawarma, um sanduíche árabe feito com carne ou frango, salada, batata frita e o tradicional pão sírio.

“Lembro que a gente tinha dinheiro para comprar três quilos de carne e pack com seis garrafas de refrigerante. E assim a gente começou”

“Não foi nada fácil no começo, porque compramos o trailler, mas não tínhamos capital nenhum para começar o negócio. E é preciso dinheiro para fazer dinheiro. Lembro que a gente tinha dinheiro para comprar três quilos de carne e pack com seis garrafas de refrigerante. E assim a gente começou”, conta Beatriz.

Pouco capital para começar

A receptividade no primeiro dia de trabalho foi boa, com a venda de 30 lanches na inauguração, e o tempero de Areen vinha conquistando cada vez mais clientes. Mas as dificuldades financeiras realmente eram muitas no início. A ponto de todo o valor arrecadado no primeiro dia ter que ser usado para a compra dos ingredientes do dia seguinte.

Além disso, em pouco tempo, a sócia Beatriz percebeu que havia um gargalo impedindo o crescimento do negócio.

“Fomos participar de uma feira. E lá éramos um dos únicos que anotavam os pedidos em papel. Nos sentimos mal, pois o nosso trailer não era tão profissional quanto os outros. Fora que era muito difícil encontrar o cliente no grito”, disse ela.

A dificuldade de Areen com a língua portuguesa, muitas vezes, também era um entrave. Na correria do atendimento, Beatriz anotava os pedidos com letra cursiva e o jovem não conseguia entender o que estava escrito. E isso era um complicador quando havia alguma alteração no lanche.

Food truck em funcionamento

Food truck em funcionamento (Crédito: acervo pessoal)

Tecnologia no ponto de venda

Após uma pesquisa, os empreendedores optaram por uma solução de ponto de venda chamada Bemacash, formada por software e hardware integrados e desenvolvida pela TOTVS. A empresa é provedora de soluções de negócios para empresas de todos os portes, atua com softwares de gestão, plataformas de produtividade e colaboração, hardware e consultoria. Está presente em 41 países com uma receita líquida de mais de R$ 2 bilhões. E conta no Brasil com 15 filiais, 52 franquias, cinco mil canais de distribuição e dez centros de desenvolvimento

A adoção do novo sistema deu mais agilidade ao atendimento do food truck. No caso dos clientes presenciais, de posse de uma senha, passou a ser possível acompanhar por um painel o andamento dos pedidos. Já para o delivery, a possibilidade de cadastrar os clientes uma única vez, para que as informações fossem armazenadas, passou a facilitar uma eventual próxima compra.

A simples chegada da nova tecnologia também rendeu ganhos no quesito organização do negócio. Com o controle de estoque, eles sabem exatamente o que tem de produtos e o que precisa ser comprado. Antes, era necessário contar as comandas de papel para saber o que foi faturado no dia e se programar para o próximo.

“Nossa, quando a gente implantou o sistema, foi uma revolução. E mudou também a percepção dos clientes. Eles reparam e elogiam, acham que tudo ficou mais organizado. O detalhe do sistema é muito diferente, poucos estabelecimentos aqui na cidade têm algo parecido”, afirmou Beatriz.

Planos para o futuro

Para o futuro, há planos para ter um segundo veículo, exclusivo para trabalhar em eventos. Além de torcer que o conflito na Síria acabe logo, Areen já consegue enviar alguma ajuda financeira para os pais e irmãos que ficaram em seu país. E, paralelamente, o refugiado junta dinheiro para trazer seus familiares para o Brasil.

Além de ter realizado o sonho de ter um food truck e servir a comida típica de seu país, Areen tem hoje em sua família brasileira outros dois refugiados sírios que foram para Ponta Grossa. Um deles, inclusive, trabalha no Areen Shawarmaria e ajuda a fazer o pão sírio.

“A história do Areen Shawarmaria é, acima de tudo, uma lição de superação. E ficamos muito felizes de ajudá-los nessa caminhada. A tecnologia pode ser simples e aplicável ao segmento de food trucks, facilitando o atendimento e a organização do dia a dia”, disse Eros Jantsch, vice-presidente de Micro e Pequenos Negócios da TOTVS.

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