Negócio em casa é a saída para muitos empreendedores no Brasil

É cada vez maior o número de pessoas que empreendem em casa. A opção é apontada como uma forma de se diminuir os custos fixos do negócio e ter qualidade de vida

Negócio em casa - bicicletaria

A bicicletaria do casal Carolina e Juliano Tancredi funciona na garagem da casa que moram em Perdizes, região oeste. (Crédito: Rovena Rosa/Agência Brasil)

Segundo um levantamento do Sebrae, em 2017 o Brasil tinha mais de 6 milhões de trabalhadores com registro de Microempreendedores Individuais (MEI). Sendo que quase metade deles operavam seu negócio em casa. E de acordo com um artigo recente da Agência Brasil, em São Paulo essa prática antiga tem ressurgido nos bairros da capital. Não apenas como forma de driblar a crise econômica. Mas também por outros fatores como busca de melhor qualidade de vida, tentativa de evoluir profissionalmente ou mesmo colocar projetos pessoais em prática.

Para o especialista em empreendedorismo do Sebrae, Ênio Pinto, a falta de oportunidades no mercado de trabalho tem aumentado o número de pequenos negócios em residências nos últimos anos. “Nós temos treze milhões de desempregados que não conseguem ingressar na sociedade produtiva como empregado, colaborador, funcionário. Você não tem emprego, mas tem muito trabalho à frente de pequenos empreendimentos, então, com certeza, há uma expansão desse perfil de negócio”, avaliou Ênio, em entrevista à Agência Brasil.

Já Marcos Salusse, coordenador de projetos do Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios, da Fundação Getulio Vargas (FGV), aponta que o empreendedor por necessidade tem como características optar por negócios não inovadores e sem planejamento. “Em 2016, quando a economia começa a melhorar, a primeira coisa que acontece é que essas pessoas voltam para o mercado de trabalho, então as taxas de empreendedorismo acabam caindo. Foi o que a gente viu nesse período”, explicou.

Contra a crise

Após 26 anos trabalhando como correspondentes bancários e corretores de seguros, Carolina Tancredi, 41 anos, e o marido dela, Juliano Tancredi, 42 anos, aproveitaram a leve retomada na economia para abrir um novo negócio em casa, onde funcionava o escritório do casal. Depois de cerca de um ano fazendo pesquisa de mercado, o casal decidiu abrir uma bicicletaria dentro do espaço de 56 m² com vitrine para a rua, onde atualmente eles vendem equipamentos e mantêm uma oficina.

Além de ser um mercado em expansão, Carolina Trancredi justifica a escolha do empreendimento como um segmento “prazeroso”.

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“A gente queria algo saudável, queria algo pra cima, algo alegre, com menos estresse, e a bicicleta trazia isso”, explicou a administradora à Agência Brasil.

A bicicletaria, localizada no bairro da Água Branca, zona oeste da capital paulista, completará um ano de funcionamento em outubro. Sobre o retorno financeiro, Carolina afirma estar muito satisfeita, mas ressalta que o momento exige dedicação.

“Quando a gente abriu a loja, a gente tinha quatro, cinco bicicletas para vender, e hoje já tem um estoque de quase cinquenta bicicletas para venda. A gente tem um movimento diário de clientes que vem buscando a parte de manutenção. Nós trabalhamos todos os dias, de segunda a segunda, de feriado. A gente está contra a crise”.

Investimento baixo no negócio em casa

Outro ponto que a empreendedora destacou foi o investimento relativamente baixo na adequação do espaço. Com os recursos financeiros que tinham, cerca de R$ 8 mil, o casal resolveu utilizar materiais de reúso na reforma, como foi o caso das grades da porta, no vidro utilizado na vitrine, além de objetos construído com pallets. Muitos dos materiais para oficina foram adquiridos com lojistas que estavam fechando o negócio e eles também contaram com a doação de fornecedores que apostaram no empreendimento.

O especialista do Sebrae alerta que, ao ter um negócio em casa, é preciso ter cuidado para não misturar as contas da empresa com as despesas pessoais.

“E na hora que você mistura as contas da sua casa com as contas do negócio você começa a ter dificuldade de tomar decisão gerencial, não sabe quais são os reais números do empreendimento e fica com dificuldade de fazer análise e tomar decisões”, disse Ênio Pinto.

Para a administradora da bicicletaria, o fato de não ter uma renda fixa todo mês é uma barreira na organização.

“Quando a gente é microempreendedor, é muito difícil separar a pessoa física da pessoa jurídica, porque você não tem nada garantido. A gente não tem um salário fixo, que todo quinto dia útil está na nossa conta”, apontou.

Qualidade de vida e menor custo

Outro motivo que leva as pessoas a unir empreendimentos com o local onde residem é uma melhor qualidade de vida. Esse é o caso de Júlia Martins, 41 anos, que trabalha como designer de moda e vendedora. Para ela, além da questão de gasto com transporte, trabalhar em casa era também uma questão de otimização do negócio.

Negócio em casa - Designer

A designer de moda, Júlia Martins, compartilha o espaço da casa com ateliê e loja de roupas, em Barra Funda, na região oeste de São Paulo (Crédito: Rovena Rosa/Agência Brasil)

“Isso tem um custo, tem um tempo, São Paulo é uma cidade grande, então você demora muito tempo para se locomover. E ainda, além desse custo, para mim, é uma coisa que dificultava um pouco eu ter um lugar longe. Porque, se eu tenho uma ideia, na minha profissão, você tem que ir lá e já fazer aquilo rapidamente. Isso, para mim, otimizava muito o tempo e custo”, disse a designer de moda.

Para ter um negócio em casa, Júlia decidiu procurar um lugar grande, onde pudesse aliar a vontade de crescer a família e o empreendimento. Para otimizar a venda, outro ponto importante era a escolha do local, o que levou a designer de moda a deixar a região do Capão Redondo, zona sul paulistana, onde ela morava, e buscar uma casa na região central da cidade. O imóvel foi alugado no bairro Barra Funda, na zona oeste.

Ela fez um investimento de R$ 25 mil, com empréstimo de banco e ajuda de amigos, para adequar a casa para receber os clientes. Júlia conseguiu quitar a dívida em cinco anos de funcionamento do estabelecimento. Atualmente, ela não mora mais no local onde funciona a confecção e a loja de vestuários, mas mantém o ponto pelos clientes, além de servir como um espaço para produzir a mercadoria.

Crescimento forçou a saída de casa

A designer conta que, em certo momento, reunir família e trabalho no mesmo espaço passou a limitar tanto o empreendimento quanto o bem-estar familiar.

“Quando eu era solteira, isso nem era tanto uma questão, mas depois que você começa a crescer, os membros começam a aumentar, aí você tem sua filha, tem o seu marido”, afirmou.

Ela conta que para expandir o negócio foi necessário separar o ambiente doméstico do profissional.

Especialista aconselha sobre orçamento

Ênio Pinto destaca que os investimentos para adequação do negócio em casa não devem pesar muito no orçamento inicial.

“Não vale a pena investir muito porque quando você começa a operar dentro de casa, logo vai chegar o momento em que o negócio vai exigir que você saia”, apontou. Ele explica que, com uma maior profissionalização e com o crescimento do negócio, o espaço físico compartilhado pode limitar sua expansão.

Advogado autônomo

No caso do advogado autônomo Gerson Clayton, 38 anos, dividir o espaço de trabalho com o ambiente familiar é possível, mas depende de certos cuidados.

“Uma coisa que a gente tem sempre que tomar muito cuidado, é ter uma rotina para não se atrapalhar”. Ele é rigoroso inclusive na vestimenta quando está em horário de trabalho. “Quando dá o horário de atendimento, que se inicia às nove horas da manhã, eu tenho que estar na minha sala. Tenho que estar vestido como advogado”, brincou o advogado empreendedor.

Gerson montou o escritório em casa, no bairro do Bixiga, na região central, e decidiu que, após trabalhar muitos anos em escritórios de advocacia, precisava evoluir como profissional.

“Até por uma questão de colocar mais as minhas próprias ideias, porque quando você trabalha em uma associação de advogados às vezes você diverge. Também tem a questão do próprio ganho, você acaba não dividindo tanto, então você acaba ganhando mais”, complementa.

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