Queijo artesanal vira negócio de consultoria para publicitário

Carioca de nascença e mineiro de criação, Daniel Martins se dedica à evangelização queijeira e se tornou uma das maiores autoridades do assunto no Brasil

Daniel Martins, dono da consultoria Queijo Com Prosa, em frente a uma mesa com diversos queijos artesanais

Exemplo de uma mesa de queijos artesanais expostos por Daniel em um evento (Crédito: acervo pessoal)

As memórias afetivas de um negócio de família e a desilusão com o mundo corporativo foram os principais gatilhos que levaram o publicitário Daniel Martins a empreender. E ele fez isso, literalmente, com a faca e o queijo na mão. Inquieto apesar do bom emprego que tinha, Daniel mergulhou de cabeça no mundo do laticínio que mora nos corações dos brasileiros e hoje tem uma consultoria, chamada Queijo com Prosa. Uma das principais autoridades sobre queijo artesanal no Brasil, ele viaja pelo país fazendo palestras e divulgando a cultura.

Militante da causa, Daniel tem sido atuante, inclusive, na luta por mudanças na legislação, de forma a favorecer cada vez mais os pequenos produtores artesanais.

“Tenho rodado muito o Brasil, levando experiência, levando os queijos. Faço palestras, harmonizações com cervejas especiais e presto consultorias para bares que desejam servir queijos de boa qualidade para seus clientes”, diz o empresário.

Tradição em laticínios

A família de Daniel tem origem na pequena Elói Mendes, no Sul de Minas Gerais, município fundado em 1925, que antes pertencia a Varginha, que atualmente tem apenas 24 mil habitantes. O consultor é tataraneto de Joaquim Batista de Melo, filho adotivo de Joaquim Elói Mendes, o Barão de Varginha, antigo proprietário de 22 fazendas na região.

Em 1948, a família de seu Daniel abriu a Laticínios Radiante Ltda., cujos produtos rapidamente ficaram conhecidos pela região. Em 1959, a fábrica já contava com filiais nas cidades mineiras de Machado, Três Pontas e Campestre.

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Crise no negócio da família

Daniel nasceu no Rio de Janeiro, onde seus pais moravam na época. Mas a família se mudou de volta para Elói Mendes quando ele tinha 10 anos de idade, pois seu pai queria tentar salvar a fábrica de laticínios, que estava falindo, no começo da década de 1990.

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“Era uma empresa familiar, disputando o mercado, precisando expandir, mas não tinha pessoas com competência para isso. E tudo isso numa região muito atrasada. Aí, veio o Mercosul e todas as fazendas da região começaram a quebrar. A Bacia Leiteira quebrou. Foi uma derrocada geral na região. O Mercosul abriu o mercado para produtos argentinos e uruguaios, que eram muito subsidiados por seus países. Os queijos por lá fazem parte da cultura, da tradição. E, por isso, eles chegavam aqui mais baratos. Isso quebrou muitas fazendas, muitos laticínios e cooperativas. E nessa onda, o nosso negócio quebrou também”, conta Daniel.

Após mais alguns anos no interior, os pais de Daniel se separaram e ele foi estudar publicidade em São Paulo. Trabalhou num grande banco por algum tempo, até decidir voltar para o Rio, onde foi morar com a mãe.

Desilusão com o mundo corporativo

“Quis voltar para o Rio de Janeiro para ajudar minha família, porque meus pais estavam separados e estava tudo meio desfragmentado. E com dois meses no Rio de Janeiro, me apareceu uma oportunidade numa empresa de petróleo e gás. Fiz algumas entrevistas e em poucas semanas eu estava lá. Fiz alguns trabalhos, gostaram e acabei chamado para montar uma equipe de comunicação, mas acabei me desiludindo, assim como aconteceu no banco em São Paulo”, conta o queijeiro.

Além de publicitário, Daniel é Sommelier de Cervejas e Chef Executivo. Ele buscou ambas as qualificações no Senac do Rio de Janeiro, na época em que ainda trabalhava numa grande corporação. Também formou-se no Instituto Candido Tostes em Juiz de Fora (MG), uma das mais renomadas escolas no segmento lácteo da América do Sul.

Cilene Saorin, renomada sommelier de cervejas

Cilene Saorin, sommelier de cervejas. (Crédito: Escola Superior de Cerveja e Malte)

E a vontade de mudar de rumos veio após uma aula de harmonização de cerveja e queijos de Cilene Saorin, uma das mais respeitadas sommeliers de cerveja do Brasil.

Após a aula com a Cilene, comecei eu mesmo a dar aulas de harmonização em casa, para amigos

“Após a aula com a Cilene, comecei eu mesmo a dar aulas de harmonização em casa, para amigos. Na época eu morava com a minha mãe na casa da minha avó. A coisa foi ganhando corpo e começaram a aparecer pessoas que eu nem conhecia. E minha mãe me alertou que eu não estava no interior de Minas, mas no Rio de Janeiro. E que era perigoso ficar recebendo pessoas estranhas em casa”, lembra Daniel.

Queijo artesanal em eventos com cerveja

No final de 2014, Daniel organizou um evento em São Paulo, em parceria com uma queijaria local: A Queijaria. O resultado, no entanto, não foi dos melhores.

“Foram sete barracas, separadas por estilos de queijos e cervejas, fazendo as harmonizações, com as presenças dos queijeiros. Convidamos cervejeiros de São Paulo, mas eles não conseguiram se comprometer de estarem com a gente. O mercado cervejeiro, naquela época, já era bem mais pujante que o de queijos. E sentimos falta de comprometimento dos cervejeiros. No final das contas, o evento acabou sendo bacana, tivemos aulas, harmonizações. Mas deu prejuízo. Ainda assim, fiquei com vontade de fazer algo parecido no Rio de Janeiro”, conta o consultor.

E após se qualificar mais no mundo da gastronomia e das harmonizações, Daniel finalmente criou, em 2015, a consultoria Queijo com Prosa. A empresa, que ele toca com o auxílio de sua esposa, Graziella, nasceu enquadrada como MEI. Mas já na mudança do calendário de 2016 para 2017 precisou passar para microempresa, pois atingiu o teto do faturamento do Microempreendedor Individual.

Daniel Martins, dono da consultoria Queijo com Prosa, participando de evento cervejeiro no Rio de Janeiro.

Daniel participa de evento cervejeiro no Rio de Janeiro (Crédito: Derek Mangabeira/I Hate Flash)

E foi após o 1º Rio Craft Beer, um evento de cervejas artesanais no Rio de Janeiro, que Daniel viu a possibilidade de impulsionar seu negócio. Enquanto palestrava no palco sobre cervejas e queijos, organizadores da Junta Local estavam na plateia. Imediatamente após a palestra, eles perguntaram se o queijeiro teria interesse de participar das feiras que estavam começando a idealizar.

A Junta Local é uma comunidade que busca levar produtos de pequenos produtores do campo e da cozinha para pessoas que querem comer bem, de forma saudável, consciente e com preço justo. Daniel se tornou parceiro na mesma hora.

“Eu tinha meu emprego e ainda tocava uma empresa de design gráfico. Mas queria me jogar neste mercado e acabei fechando tudo para me dedicar só ao Queijo com Prosa”, diz Daniel, que hoje, com sua empresa, espera mudar o panorama do queijo no Brasil. “Os Sebraes de vários estados já me chamaram para levar esse projeto para diversas regiões. O objetivo é apoiar, ensinar as pessoas e ajudar a disseminar a cultura queijeira pelo Brasil”, completa.

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O caminho, no entanto, não é dos mais fáceis. Para o queijo artesanal, a charcutaria e os produtos de origem animal em geral, a legislação vigente, de acordo com Daniel, data de 1952.

“É uma legislação que foi feita num momento em que o Brasil começava a ser industrializado, numa época, após a Segunda Guerra, quando precisávamos de alimentação barata para a população”, revela o empresário.

Segundo o próprio Daniel escreveu em uma de suas colunas na Revista da Cerveja, “a legislação sanitária atual não diferencia escalas de produção, criando barreiras para o acesso aos mercados. Os produtos de origem animal estão atualmente submetidos ao Regulamento de Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal (RIISPOA), que, como o nome já diz, é voltada para a indústria, com grandes escalas de produção e processamento. O RIISPOA não contempla a produção artesanal, com a agricultura familiar e as pequenas agroindústrias de alimentos”.

Hoje em dia, um queijeiro artesanal que tem apenas um selo municipal, só pode vender seu produto dentro do município. Para vender no estado, tem que correr atrás do selo estadual. E o selo federal é praticamente inviável para um pequeno produtor.

“O selo federal é feito apenas para grande indústria, pois o caderno de encargos é inconcebível para um negócio familiar e artesanal”, diz Daniel.

Recentemente, ao lado de outros amigos da causa e comerciantes, Daniel ajudou a criar a Associação Nacional de Comerciantes de Queijo Artesanal Brasileiro, a ComerQueijo, a primeira associação de comerciantes do setor no Brasil. A entidade, inclusive, foi convidada e recebida em comitiva pelo Ministério da Agricultura, em Brasília.

“Os deputados de Minas Gerais resolveram fazer um desagravo logo após o episódio em que a chef Roberta Sudbrack teve queijos e linguíças artesanais apreendidos e descartados pela Vigilância Sanitária no restaurante que ela comandaria no Rock in Rio”, conta Daniel.

Foto de queijo artesanal produzido pela Queijo com Prosa em colaboração com a queijaria Capril do Bosque

Produção colaborativa da Queijo com Prosa e a queijaria Capril do Bosque: blend de leite de cabra e búfala, maturado com cerveja do estilo Berliner Weiss e um toque de blueberries maceradas na casca (Crédito: acervo pessoal)

Por conta de sua militância queijeira, Daniel e seus pares já estão conseguindo mobilizar contatos no Senado Federal e estão otimistas em relação à mudança da legislação: “esperamos mudar isso em breve. Em 2018 tem eleição, pode ser que isso dificulte. Mas acho que a partir de 2019 a gente vai conseguir ajustar essa legislação”, comenta o esperançoso empresário.

A mudança nas leis é a grande esperança de Daniel, que sonha em ver o queijo brasileiro ser valorizado e reverenciado da forma que merece, por se tratar de um produto que faz parte da cultura do país.

“Acho que isso vai acontecer no Brasil. A história e a cultura do queijo serão tratadas como devem ser. Há queijos que são feitos no Brasil há séculos. São verdadeiros patrimônios. Com uma nova legislação, prevejo o surgimento de lojas de queijos maravilhosas, como existem na Europa, por exemplo. Espero que queijos tradicionais como o Serrano, queijo do Marajó,o queijo Manteiga, o Canastra, entre outros, possam ser vendidos livremente por todo território nacional. Com isso, mais pessoas poderão se assentar no campo, criando mais empregos nas pequenas cidades. E os produtores, hoje marginalizados, poderão produzir sem medo, mas com muito orgulho”, sonha o queijeiro.

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