Conheça um negócio com pouco investimento e muita pimenta

Ao se ver desempregado em 2014, Pedro Reis pegou o pouco dinheiro que tinha e investiu numa marca de molhos de pimenta, que hoje faz sucesso em São Paulo

Foto de Pedro Reis, dono do negócio de pouco investimento, P de Pimentas, em feira.

Pedro Reis em uma das diversas feiras das quais participa em São Paulo (Crédito: acervo pessoal)

O objetivo do pernambucano Pedro Reis era trabalhar no meio da literatura. Para isso, fez faculdade de Letras em Recife e depois se mudou para São Paulo, em 2013, onde começou a trabalhar numa livraria. Mas a vida, muitas vezes, não corrobora com os planos feitos para ela. Após cerca de um ano de experiências vividas na área de atuação que escolheu, Pedro viu que precisava dar uma apimentada nas coisas. E em muito pouco tempo, e com pouco investimento, criou o P de Pimentas, uma marca de molhos artesanais que, em apenas três anos de existência, já está consolidada no mercado paulistano de gastronomia e se tornou um negócio de sucesso.

“Minha ideia era continuar a estudar literatura em São Paulo e trabalhar com editoração, com livros em geral. Acabei conseguindo um emprego numa livraria e lá conheci muita gente legal. Com isso, fui descobrindo que eu adoro lidar com gente, conhecer pessoas, vender coisas que eu gosto. Quando saí da livraria, em julho de 2014, viajei para o Recife. E um dia, na praia, numa conversa com amigos, começamos a falar de pimentas. Um deles me disse que viu um molho inusitado numa matéria de jornal uns anos atrás e eu fiquei com aquilo na cabeça”, conta Pedro.

Testando a receita

Um mês depois, já de volta a São Paulo, Pedro resolveu testar a tal receita inusitada. Levou para alguns conhecidos provarem e todos adoraram, entre eles as amigas de uma vendinha chamada Tabuleiro do Acarajé.

“Todos acharam sensacional. Queriam o molho para vender. Essa primeira receita acabou sendo o meu molho Nero, o primeiro que fiz e o mais forte do meu catálogo até hoje. E a partir desse molho, comecei a fazer pesquisas. Eu estava sem emprego, queria apostar em algo novo, e essa coisa da pimenta veio a calhar naquele momento”, relembra o empreendedor.

Foto de vários tipos de pimentas.

Pedro provou uma grande variedade de pimentas para fazer suas harmonizações (Crédito: acervo pessoal)

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A imersão no mundo das pimentas foi rápida e em alguns momentos dolorosa, por conta das variedades mais ardidas.

“Sai provando pimentas de tudo quanto foi tipo. E sofrendo muito com isso!”, brinca Pedro. “Foi um processo bem rápido de pesquisa e de teste de harmonizações, que são a base da minha marca. A Nero, por exemplo, leva pimenta fidalga com manga. Tenho outra que leva jalapeño com abacaxi. E após essas pesquisas eu logo parti para a produção. Sempre fui muito autodidata, lendo, pesquisando, focado no universo da pimenta. Não sou chef, não sou cozinheiro por formação e, por hora, não tenho planos para isso”, completa.

Foto de Pedro e Checho Gonzales.

Pedro e seu amigo e padrinho de negócio, o chef boliviano Checho Gonzales (Crédito: acervo pessoal)

Um padrinho de peso

Pedro conta que as amigas que faziam acarajé acabaram dando um impulsionamento inesperado em seu negócio, que na época apenas engatinhava. Elas mandaram seu molho para o chef boliviano Checho Gonzalez, que na época estava para abrir a Comedoria Gonzales, em outubro de 2014.

“Ele gostou muito e a gente acabou se juntando. Ele me chamou para inaugurar a casa junto com ele. E ele me deu todas as dicas para fazer o molho para ele, que era o molho que hoje se chama Llajwa, inspirado na Bolívia. E foi assim que começou a marca. O Checho acabou sendo um grande padrinho para mim. Por conta dele, chefs de outros restaurantes me procuraram para fazer molhos personalizados. Passei um bom tempo sendo ‘o cara que fazia o molho do Checho’. E a marca foi crescendo”, lembra Pedro.

Na parte burocrática, Pedro também contou com um empurrãozinho de Checho, que o indicou para uma auditoria de vigilância sanitária, onde teve toda a consultoria necessária para lidar com a papelada necessária para a abertura da empresa. Chegou a fazer alguns cursos, como o de “boas práticas na manipulação de alimentos”, e foi pesquisando outras coisas por conta própria. Segundo ele, “não foi difícil. Só uma questão de tentar cumprir a lei. E deu certo. Regulamentação de pimentas não é uma coisa muito complicada”.

O P de Pimentas começou sem grandes planejamentos. Segundo Pedro, seu investimento inicial não deve ter chegado sequer a R$ 2 mil, que era o pouco dinheiro que ele tinha na época. O valor foi usado para a compra de ingredientes, frascos, tampas, confecção de cartões de visitas, algumas camisetas e divulgações no Facebook.

“Eu queria começar de algum jeito e nos primeiros quatro meses foi assim.  Foi uma época em que eu fiquei meio no limbo, endividado. Fui entrar num equilíbrio, mesmo, depois de cerca de dez meses de negócio”, conta o empreendedor.

Feiras gastronômicas: um novo filão para o negócio

Impulsionado pelo apadrinhamento do chef boliviano, Pedro Reis entrou de cabeça nas feiras gastronômicas, que, atualmente, são responsáveis pelo grosso de seu faturamento.

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“Eu não tenho loja física. Tenho a online, mas são as feiras que me dão grande parte da minha receita mensal. E muitos amigos me ajudam também. Tem a Fêra Féra, que é feita por amigos, uma das primeiras que eu fiz e uma das feiras que mais apoiaram a marca. Já fiz a Churrascada, que é uma grande feira de churrasco aqui em São Paulo, entre outras”, conta Pedro. “Para Churrascada, inclusive, eu fiz um molho exclusivo que só foi vendido naquele evento e que nunca mais fiz. Quem comprou, tem uma raridade em mãos”, completa.

Quando estava começando a marca, no momento em que abriu seu CNPJ, Pedro passou numa prova de mestrado na Universidade de São Paulo (USP), ainda na área de literatura. Mas como o P de Pimentas já estava proporcionando a ele a renda suficiente para morar em São Paulo, acabou largando o mestrado para focar na nova empresa.

As vantagens de ser MEI

Pedro é Microempreendedor Individual. E por estar enquadrado no MEI, pode ter apenas um funcionário. Mas até cerca de um mês e meio atrás, vinha fazendo tudo sozinho. Atualmente, conta com a ajuda de duas amigas, para as quais paga diária em dias de produção. Elas entram no pré-tratamento das pimentas, algo que, segundo Pedro, demanda muito tempo.

“Me utilizo da vantagem de que MEI pode ter a sede em casa, e pelo menos aqui em São Paulo é permitido ter esse tipo de produção caseira. Minha primeira filha nasceu em agosto deste ano e, convenientemente, acabei reencontrando essas duas amigas que estão me ajudando. Mas até um mês e meio atrás eu fazia tudo sozinho”, conta Pedro, que relembra um dos episódios de maior estresse nesses três anos de empresa: “Ao longo da gestação, tivemos problemas. Minha esposa teve placenta baixa, ficou de licença boa parte do ano, pois precisava ficar de repouso para não ter sangramentos. E no meio dessas complicações, eu estava produzindo quatro mil unidades para o Fenearte, um grande evento em Recife, e para abastecer as feiras em São Paulo. Felizmente deu tudo certo”, lembra o empresário.

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Atualmente, se não contasse com a pré-produção, uma ajuda de luxo que é bem recente, Pedro calcula que teria capacidade para produzir de 800 a 1.200 unidades de molhos de pimenta por mês. Segundo o empresário, essa é justamente a sua demanda atual, que normalmente aumenta um pouco quando chegam os períodos de festas de fim de ano.

“Devo passar algum tempo ainda como MEI. Imagino que pelo menos mais um ano e meio. Se eu conseguir fazer um investimento legal agora na loja virtual, dando uma divulgada nisso, acredito que em menos de dois anos eu chego a Microempresa (ME)”, planeja o empreendedor.

Alguns dos molhos que Pedro tem em catálogo no P de Pimentas

Alguns dos molhos que Pedro tem em catálogo no P de Pimentas (Crédito: divulgação)

Os molhos do P de Pimentas custam entre R$ 15 e R$ 18 reais no varejo e de R$ 8 a R$ 10 no atacado. O produto tem validade de seis meses e o empresário consegue, já há algum tempo, controlar bem o fluxo de produção, estoque e demanda de seus molhos.

“Meu produto não é analisado laboratorialmente. Fazer isso é muito caro. Então, seis meses de validade é uma margem de segurança que a Anvisa determina. Mas pimenta é um conservante natural, o molho é processado com vinagre, que tem uma acidez suficiente para evitar que organismos se proliferem. Empiricamente, sabemos que se você mantiver o seu molho na geladeira, ele conserva por mais de um ano. Mas a minha validade no rótulo tem que ser essa”, afirma o empresário.

O futuro da empresa

Pedro tem planos de entrar mais no universo de atacado, para fazer o faturamento girar mais. No entanto, está tateando o mercado, pois não faz parte de seus planos, por enquanto, fornecer para grandes supermercados.

“No atacado você perde um pouco de margem, mas gira muito mais o produto. Não nos atacados que sejam predatórios. As grandes redes são complicadas, te forçam a jogar o seu preço lá em baixo na negociação. E você acaba produzindo muito e quase pagando para trabalhar. Quero planejar bem onde entrar, fazer menos feiras e manter uma constância boa da loja virtual e do atacado”, conclui Pedro.

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