Microcervejaria só de mulheres movimenta cidade serrana

Capitaneada pelas sócias Mônica Mendonça e Daniela Medeiros, a Angels & Devils Craft Beer tem fábrica própria, com capacidade de produção de quatro mil litros mensais

Equipe da Angels & Devils. Mônica, em primeiro plano, seguida, em sentido horário, por Daniela, Priscila e Andreza

Equipe da Angels & Devils. Mônica, em primeiro plano, seguida, em sentido horário, por Daniela, Priscila e Andreza (Crédito: Intagram)

Quem nunca ouviu falar da expressão “cerveja de mulher”? Normalmente, ela é usada para descrever estilos um pouco mais delicados e adocicados da bebida. Como se o público feminino não tivesse papilas gustativas capazes de apreciar rótulos mais encorpados ou amargos. Ou seja, apenas mais um típico caso de sexismo. Já a expressão “cervejaria de mulher” é diferente. Denota exatamente o contrário. Mostra que elas também são o sexo forte. E é exatamente esse o tipo de negócio das sócias Mônica Mendonça e Daniela Medeiros.

Elas são donas da fábrica de cervejas Angels & Devils Craft Beer, administrada só por mulheres e localizada na cidade de Nova Friburgo, Região Serrana do estado Rio de Janeiro.

“Eu e a Dani somos as sócias. E além de nós, temos duas funcionárias: a Andreza Marini, que atua comigo na gestão e na parte comercial, e a Priscila França, que fica na parte de produção com a Dani. Temos uma outra pessoa, que é o único homem nesse meio, que ajuda a gente pontualmente, apenas sob demanda. Quando precisamos fazer limpeza, carregar barris. Enfim, nessas atividades que requerem mais força física, ele entra ajudando. Mas o core do negócio é todo feito por nós quatro. É verdadeiramente uma cervejaria formada por mulheres”, explica Mônica.

O core do negócio é todo feito por nós quatro. É verdadeiramente uma cervejaria formada por mulheres

Equipe da Angels & Devils. Mônica, em primeiro plano, e no sentido horário: Priscila, Daniela e Andreza

Equipe da Angels & Devils cercada por rótulos da witbier Mary Angel (Crédito: Instagram)

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Experiência na grande indústria

Engenheira eletricista por formação, Mônica trabalhou por sete anos em projetos de automação de grandes cervejarias (AMBEV, Grupo Petrópolis e Schincariol), fazendo controle de processos. E por intermédio de uma amiga em comum, conheceu Daniela, que sempre gostou muito de cerveja.

Por saber da profissão da amiga, Daniela sempre brincava sobre a possibilidade de as duas abrirem um negócio relacionado à cerveja. E como tinha mais conhecimento técnico do assunto, apesar de sequer se considerar uma apreciadora da bebida à época, Mônica aconselhou que ela se capacitasse.

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“Eu dizia para ela que eu entendia da parte de processo, de equipamento. Mas eu não tinha conhecimento sobre desenvolvimento de receitas. Eu sequer bebia cerveja naquela época. As cervejas que eu desenvolvia eram produtos que eu não consumia. Eu dizia para ela que eu gostava de cerveja maturada. E ela não entendia o que isso significava. Até que eu a levei numa fábrica e mostrei. A cerveja maturada nada mais é do que a cerveja pura que a gente produz. E que as grandes indústrias diluem para vender em grande volume. Quer dizer, eu consumia cerveja artesanal mesmo antes de saber que ela existia. E aí eu mexia com ela e dizia: ‘vai estudar’. Porque alguém precisava aprender a bolar as receitas”, conta a empresária.

Microcervejaria só de mulheres movimenta cidade serrana
Chegada dos equipamentos na casa onde a fábrica foi instalada (Crédito: acervo pessoal)
Microcervejaria só de mulheres movimenta cidade serrana
Estande da Angels & Devils no Mondial de la Bière de 2016 (Crédito: acervo pessoal)
Microcervejaria só de mulheres movimenta cidade serrana
Estande da Angels & Devils no Mondial de la Bière de 2017 (Crédito: acervo pessoal)
Microcervejaria só de mulheres movimenta cidade serrana
Chope sendo servido no Mondial de la Bière de 2017 (Crédito: acervo pessoal)
Microcervejaria só de mulheres movimenta cidade serrana
Daniela explica para visitantes da fábrica os processos de produção (Crédito: acervo pessoal)
Microcervejaria só de mulheres movimenta cidade serrana
Área externa da fábrica, usada para degustações em dia de visitações (Crédito: acervo pessoal)

Capacitação e sociedade

Até que em 2015, num aniversário da amiga em comum, Mônica encontrou com Daniela e ficou sabendo das boas novas: de tanto ela falar, a amiga foi estudar sobre o assunto. Fez um curso com o mestre-cervejeiro Leonardo Botto, uma das maiores referências do Brasil no assunto, e se formou como Sommelier de Cervejas pelo Instituto da Cerveja Brasil (ICB).

Fazer cerveja, hoje em dia, muita gente faz. Mas garantir a qualidade é para poucos

“Ela já estava fazendo cervejas em casa havia dois anos. E, na verdade, o que mais me interessou nessa capacitação dela foi o curso de sommelier. Porque fazer cerveja, hoje em dia, muita gente faz. Mas garantir a qualidade é para poucos. Nesse dia eu falei: ‘agora, sim, vamos conversar’. Isso foi em junho de 2015”, lembra Mônica.

Modelo de negócio

A engenheira conta que, nas primeiras conversas, não concordou muito com a ideia inicial de Daniela, que queria abrir uma fábrica para atender a crescente demanda de marcas ciganas. Mônica, então, fez suas sugestões, as duas trabalharam um pouco na ideia e fecharam o modelo de negócio.

“Já que a gente tem a possibilidade de ter uma marca, vamos partir para esse lado. E no espaço ocioso da nossa fábrica, a gente abre para cervejarias ciganas. O que eu não queria era virar uma encubadora de ciganos”, revela a empreendedora.

Fora do Rio de Janeiro

Inicialmente, a dupla pensou em abrir a fábrica no município do Rio de Janeiro, onde moravam. Mas o histórico de violência da cidade foi um ponto decisivo para a ideia ser abortada.
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“Se você se afasta um pouco mais da região central da cidade, começa a esbarrar com milícias e outras coisas bem nebulosas, que eu não me sentia muito confortável em gerenciar. Sempre trabalhei com gestão. Eu até poderia trabalhar com coisas burocráticas e órgãos oficiais. Mas gerenciar algumas coisas que acontecem no Rio vai muito além da burocracia. Tem a ver com parte emocional, até. E de segurança física”, confessa Mônica.

O local escolhido, coincidentemente, acabou sendo a terra natal de Mônica: Nova Friburgo, de onde ela havia saído quando mais jovem para estudar e buscar oportunidades de trabalho. E para onde não havia cogitado voltar.

“Começamos a avaliar a possibilidade de abrir na Região Serrana. E eu não queria vir para Nova Friburgo. Eu achava que aqui a gente não teria muitas condições de fazer isso crescer. E a gente já estava cogitando Teresópolis ou Petrópolis. Mas eu me lembro que minha conversa com a Dani foi num final de semana. E logo na segunda-feira ela me mandou uma matéria que saiu num jornal sobre incentivos que a prefeitura daqui estava lançando para abertura de cervejarias”, disse a friburguense.

Vantagens de Nova Friburgo

Animadas pela matéria, Mônica e Daniela bateram o martelo sobre o único lugar, além do Rio de Janeiro, que haviam inicialmente descartado.

E as vantagens de Nova Friburgo não se resumiam apenas aos incentivos da prefeitura. Os pais de Mônica se casaram e tinham uma casa que eles próprios construíram, onde criaram seus três filhos. O imóvel estava fechado havia um ano. E sua mãe sugeriu que a cervejaria fosse feita lá.

Fiz a fábrica no primeiro andar e acabei voltando para a minha cidade, com um negócio dentro da casa da minha família

“E eu falei: ‘se você me alugar a casa, eu quero. Não quero nada dado’. E assim foi feito. Levei a prefeitura lá, para verificar o zoneamento e saber se eu poderia construir. Afinal de contas, apesar de ser de baixo impacto, é uma indústria. Fiz a fábrica no primeiro andar e acabei voltando para a minha cidade, com um negócio dentro da casa da minha família. Para a gente foi bom, porque andamos metade do caminho. Não precisamos ver terreno, construir um galpão. Isso geraria um investimento muito maior”, avalia Mônica.

Mãos à obra

A primeira conversa com Daniela aconteceu em junho de 2015. Em novembro do mesmo ano foram feitas as aquisições dos equipamentos e em março de 2016 teve início a obra.

As sócias compraram, inicialmente, uma panela de brassagem de 250 litros e quatro tanques fermentadores de 500 litros cada. Mas logo na sequência, ao sentirem o movimento da cidade, trataram de providenciar outros quatro tanques com a mesma litragem. Com isso, têm uma capacidade de produção de 4 mil litros mensais.

De acordo com Mônica, o investimento inicial na fábrica foi de R$ 300 mil.

Primeiros tanques fermentadores instalados na fábrica da Angels & Devils

Primeiros tanques fermentadores instalados na fábrica da Angels & Devils (Crédito: Instagram)

Início da operação

Em julho de 2016, com a obra pronta e a produção iniciada, a sede da Angels & Devils Craft Beer recebeu a visita do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). E com os devidos registros no MAPA em mãos, a operação de comercialização começou em agosto daquele ano. Dois meses depois, com dois rótulos lançados, elas participaram do Mondial de la Bière Rio, um dos maiores eventos anuais de cerveja do calendário brasileiro.

“Nossa produção começou com a Mary Angel, que é nossa witbier com alecrim, que foi muito legal, porque muitas pessoas nos conheceram por conta dela. E depois tivemos a Scarlet, uma Red Ipa. E essa ideia do nome Angels & Devils vem de brincar um pouco com os opostos, com os extremos. A witbier está mais para o lado ‘Angel’, enquanto a Scarlet vai mais para o ‘Devil’. Depois, lançamos outras duas, a Valentina, que é uma Bock, e a Aruna, que é a American IPA. Ambas também mais ‘Devil’. Tanto que a próxima vai ser uma ‘Angel’, para equilibrar”, conta Mônica.

Os quatro primeiros rótulos da cervejaria Angels & Devils

Os quatro primeiros rótulos da cervejaria Angels & Devils (Crédito: Instagram)

Nas redes sociais, a microcervejaria já revelou detalhes do próximo rótulo: uma cerveja do estilo Catharina Sour, com adição de frutas vermelhas, chamada Ironia.

Além disso, as cervejeiras seguem oferecendo, com uma frequência de uma vez por mês, um evento na fábrica que chamam de Beer Tour, no qual abrem as instalações para visitação, que termina com a ocupação da área externa da casa para que os clientes possam consumir os produtos e desfrutar do belo visual da Serra de Nova Friburgo.

Primeiras fotos da Catharina Sour, cerveja com adição de frutas vermelhas

Primeiras fotos da Catharina Sour, cerveja com adição de frutas vermelhas (Crédito: Instagram)

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