Maternativa: a rede de mães que virou uma startup

Conheça a história de Ana Laura e Camila Conti, duas amigas que ficaram grávidas ao mesmo tempo e resolveram criar uma rede de mulheres empreendedoras

Ana Laura e Camíla Conti, sócias da rede de mães empreendedoras Maternativa

Ana Laura e Camíla Conti, sócias do Maternativa (Crédito: Divulgação)

O nascimento de uma criança é um acontecimento transformador na vida de uma mulher. E entre as várias mudanças que as mães enfrentam, especialmente as de primeira viagem, a relação com o mercado de trabalho está entre as mais inquietantes. Desde 2014, quando descobriram que estavam grávidas com apenas 15 dias de diferença, a designer Camila Conti e a pedagoga Ana Laura Castro têm passado por todas as agruras e alegrias da maternidade juntas. A amizade entre as duas, fortalecida na gestação e pela condição de desempregadas após o parto, virou sociedade. Juntas, elas criaram o Maternativa, inicialmente um grupo de Facebook e hoje uma startup social, que vem mudando a vida de muitas mães empreendedoras.

Ana Laura e Camila eram apenas conhecidas e faziam parte de um mesmo círculo de amizade. Começaram a se aproximar um pouco mais quando a primeira foi trabalhar com o então marido da segunda, hoje ex. Até que um dia a notícia da maternidade bateu na porta de uma delas. E as duas mal sabiam o tanto que suas vidas mudariam naquele momento.

“Eu era diretora de arte numa agência de publicidade. E a Ana Laura era pedagoga e estava no Rio de Janeiro, num emprego novo numa escola de educação alternativa. Aí, eu fiquei grávida e contei para ela numa festa. E ela me falou: ‘nossa, nem posso imaginar de ficar grávida agora, porque estou em período de experiência’. Quinze dias depois ela descobriu a gravidez também”, conta Camila, num papo com o Negociarias.

Unidas pelos interesses em comum

Durante a gestação, as duas começaram a ver que tinham muitos interesses em comum. Ambas estavam buscando o parto humanizado para seus filhos e tinham colocado como meta a amamentação exclusiva nos primeiros seis meses de vida das crianças.

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Por estar no período de experiência no emprego, Ana Laura não foi contratada. Camila, por sua vez, viu num primeiro momento a festa dos colegas de trabalho pela notícia, mas depois começou a ouvir conversas sobre sua saída.

“Quando falei na agência que estava grávida, todo mundo parabenizou e tal. Mas algumas semanas depois rolou um papo sobre a minha saída. Eu trabalhava lá como pessoa jurídica e tal. Acabou que eu fiquei até um pouquinho antes de o meu filho nascer, em abril de 2014. E o combinado era pegar férias e não voltar mais”, lembra Camila.

Camila Conti e Ana Laura, de simples conhecidas a amigas a sócias numa startup

Camila Conti e Ana Laura, de simples conhecidas a amigas a sócias numa startup (Crédito: acervo pessoal)

Troca de experiências

Sem trabalho e cada uma com um recém-nascido para cuidar, as duas já se apoiavam mutuamente pela amizade que floresceu durante a gestação. Começaram, então, a trocar ideias sobre o que fariam. E foi então que o empreendedorismo começou a se materializar. Ana Laura chegou a trabalhar com festas e eventos, enquanto Camila voltou a pegar clientes da época da agência, para trabalhos de diretora de arte, freelancer. Mas a dificuldade de empreender, ainda mais com bebês pequenos, era grande.

Nossas mães já tinham passado por isso. Nossas amigas também estavam passando. Então, resolvermos montar o grupo no Facebook. Pensamos num nome e criamos a Maternativa

No meio desse tortuoso processo, elas passaram a conversar com amigas, familiares e até com as próprias mães. E perceberam que todas estavam ou já estiveram no mesmo barco.

“Nossas mães já tinham passado por isso. Nossas amigas também estavam passando. Então, resolvermos montar o grupo no Facebook. Pensamos num nome e criamos a Maternativa. Chamamos algumas amigas para participarem e em um mês éramos seiscentas mulheres no grupo. Foi quando percebemos que talvez não fosse um problema só nosso. Talvez fosse um problema de outras mulheres. Então, resolvemos conversar, trocar ideias e entender mais”, conta a empreendedora.

O nascimento da Maternativa

O grupo foi criado em junho de 2015, quando os filhos de Ana Laura e Camila já haviam completado um ano de idade. Até então, as duas haviam passado um ano inteiro “batendo cabeça” e buscando formas de empreender, antes de resolverem dividir suas dúvidas e inseguranças com outras mulheres na mesma situação.

“A gente não tinha experiência com empreendedorismo. Sou formada em administração e depois fiz especialização em direção de arte e design gráfico, Mas me lembro que na faculdade eu tive apenas umas duas aulas sobre empreendedorismo. Não tínhamos tanta ênfase nisso. Ou seja, as faculdades são focadas em preparar o jovem para o mercado de trabalho e não para eles empreenderem. Então, aprendemos tudo nesse processo. E ainda estamos aprendendo”, diz Camila.

Encontros com mães empreendedoras

A empreendedora ressalta que o grupo no Facebook surgiu inicialmente pela necessidade de debater. Elas queriam saber como as outras mulheres estavam lidando com a questão da maternidade e do trabalho. E desde o início, uma das formas de promover essa troca de experiências tem sido um encontro presencial gratuito entre mães empreendedoras, promovido pela Maternativa. Nesse tipo de evento, que elas passaram a chamar de “Cafeína”, o objetivo principal é conectar as mães.

“Percebemos a necessidade de as mães se conectarem e se conhecerem. Isso dava muito certo. As mulheres adoravam e saíam dos encontros inspiradas, com os olhos brilhando. Pensamos: temos que fazer sempre. Teve uma época que fazíamos uns quatro por mês. Mas aí começou a ficar muito puxado para a gente. Depois reduzimos para um encontro mensal, porque a gente queria fazer algo com mais qualidade. Agora, estamos com uma parceria com a Zôdio Brasil, que é uma empresa francesa que chegou aqui em São Paulo. Fizemos um encontro com a rede deles e com a nossa e um workshop”, revela Camila.

Crianças são bem-vindas

O “Cafeína” acontece sempre pelas manhãs, pois é o período em que as crianças estão mais calmas. De acordo com Camila, as mulheres podem e devem levar seus bebês. E para que o encontro seja produtivo, o ambiente e horário precisam ser bons para todo mundo.

“Nossos encontros são sempre baby friendly. As mães se sentem totalmente à vontade, porque sabem que não vão ser recriminadas, podem amamentar normalmente. E ao mesmo tempo elas estão ali se nutrindo de informação, de conhecimento, trocando com outras mulheres. Sempre falamos para elas levarem cartões de visitas, elas fazem networking. É um momento muito rico. Tem a coisa de a mulher sair de casa, porque quem tem filho pequeno acaba ficando muito presa. E ela pode sair um pouco, conhecer outras mulheres, ver que todas estão passando pela mesma coisa. Isso faz muito bem e dá um gás para a mulher decidir se quer empreender ou não”, diz a organizadora.

Crescimento orgânico

De acordo com Camila, a Maternativa “cresceu muito mais como um projeto do que como uma empresa”. Atualmente, o grupo no Facebook tem um crescimento orgânico de, em média, 60% ao mês e já ultrapassou 20.500 mulheres. No Instagram já são mais de 16 mil seguidoras e na fanpage do Facebook há mais 13 mil pessoas seguindo.

A empreendedora faz questão de manter esse crescimento o mais natural possível, sem posts patrocinados e outros impulsionamentos. O objetivo é ter nas redes da Maternativa pessoas que estejam realmente interessadas nos assuntos propostos.

E alavancadas pelo grupo do Facebook e pelos encontros presenciais cada vez mais concorridos, algumas janelas começaram a se abrir para a dupla de amigas, que passaram vislumbrar oportunidades de negócios.

“Começamos a passar por muitos processos. Fomos incubadas pelo projeto de garagem da Inesplorato, recebemos uma mentoria super legal da Queen Mary University de Londres, que fez um projeto aqui no Brasil junto com a USP (descrito neste estudo, em inglês, a partir da página 33). Então, a gente foi aprendendo e entendendo qual seria o nosso modelo de negócios e em qual frente iríamos trabalhar. Só então conseguimos estruturar e moldar a Maternativa como negócio, mesmo. Isso aconteceu em março de 2017. Até então, a gente estava como qualquer startup, num processo de testar e ver o que dava certo”, diz a empresária.

A hora de montar um negócio

Hoje, o modelo de negócios do Maternativa tem como um dos pilares o marketplace. Trata-se de um e-commerce que foi lançado no ano passado, junto com a formalização da empresa. Nele, as empreendedoras cadastradas vendem seus produtos e serviços, enquanto a empresa de Camila e Ana Laura fica com um percentual da transação.

O projeto da loja virtual foi lançado com recursos do VaiTEC, o Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais da Secretaria de Cultura da cidade de São Paulo. Mas antes disso, para formalizar e estruturar a empresa, elas contaram com os recursos de uma campanha de crowdfunding (veja no vídeo abaixo), que arrecadou R$ 36.432, superando a meta de R$ 33 mil.

“O marketplace foi uma demanda. A gente viu que as mulheres queriam comprar e vender umas das outras. Mas não dava para deixar isso no grupo do Facebook, pois tira o foco do debate. Vira só monte de anúncios. E aí pensamos no marketplace. No começo, como não havia grana para investir, criamos um site simples. Era um como um grande classificado. As mulheres entravam, cadastravam a empresa, colocavam uma foto, descreviam os serviços e deixavam um contato. E depois de todas as mentorias pelas quais passamos, identificamos uma oportunidade de negócio e criamos esse site transacional, com recursos do programa VAI. E nele recebemos um percentual sobre a transação. Hoje a gente está num processo de buscar investimento e deixar essa tecnologia melhor”, revela Camila.

Economia colaborativa

Com o marketplace, Ana Laura e Camila lançaram uma campanha chamada #compredasmaes. O objetivo é fazer com que esse mercado paralelo – porém totalmente legalizado e genuíno – se fortaleça cada vez mais.

As vezes você compra uma roupa e fica sabendo aquela marca tem uma denúncia de trabalho escravo. Poxa, muitas vezes com esse dinheiro que você pode comprar um produto de uma costureira superqualificada

“É o que a gente chama de uma economia circular. Em todo movimento de empreendedorismo, especialmente entre micro e o pequenos negócios, existe uma tendência de as pessoas se conectarem. Essa coisa de comprar de quem é pequeno, de quem está produzindo. É uma maneira de fortalecer uma outra economia, de forma colaborativa. Tem muita coisa que a gente pode comprar e não ficar com culpa. As vezes você compra uma roupa e fica sabendo aquela marca tem uma denúncia de trabalho escravo. Poxa, muitas vezes com esse dinheiro que você pode comprar um produto de uma costureira superqualificada, que faz roupas lindas, que não está explorando ninguém para fazer aquilo. Existe um consumidor mais consciente, que quer comprar de outras formas. E isso tem um impacto enorme dentro do pequeno e do microempreendedor”, diz Camila.

Segundo a empreendedora, dentro do universo das mães, há engenheiras, arquitetas, designers, fotógrafas e diversas outras qualidades de profissionais. Todas com muita qualificação, mas que não conseguiram voltar para o mercado de trabalho após o nascimento de seus filhos, mas que estão batalhando e prestando seus serviços para outras mulheres.

“Temos muitas advogadas, por exemplo! O que tem de advogadas anunciando seus serviços é impressionante. E são mulheres ótimas, cada vez mais especializadas em coisas muito específicas, como vara da família, direito do consumidor, direito autoral. São superprofissionais. Então, vamos contratar uma profissional que a gente sabe que é mãe, que está em busca do seu espaço. Isso tem uma identificação. É muito importante e é uma coisa que fortalece muito”, completa a empresária.

Outras frentes de negócios

Além do marketplace, outra frente de negócios do Maternativa são os workshops, que, diferentemente do encontro “Cafeína”, são pagos. As sócias têm um workshop específico chamado “Como lacrar nos negócios“, que é realizado bimestralmente. É um evento pago, no qual a mulher passa por uma tarde de imersão, com insights, cases, com uma série de processos já analisados do mercado.

Além disso, numa outra demanda de marcado também percebida pelas sócias, a Maternativa também tem um braço de consultoria para empresas, algo que ainda está em fase inicial.

“Muita gente procura o Maternativa para entender como podem fazer para, dentro do mercado de trabalho tradicional, reter as mulheres que são mães, tentar melhores políticas para esse público. Já fomos convidadas algumas vezes para falar sobre isso. E percebemos que também temos um nicho de negócio aí e vamos começar a atuar mais nessa frente em 2018”, revela Camila.

Camila Conti conduz o workshop "Como lacrar nos negócios"

Camila Conti conduz o workshop “Como lacrar nos negócios” (Crédito: Belle Favarin)

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