Empreendedorismo de nicho: conheça a Rainha Crespa

Empresa foi criada para formalizar a atividade da produtora cultural Elaine Rosa, idealizadora, fundadora e organizadora da Feira Crespa

Elaine faz palestra na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos

Elaine faz palestra na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos (Crédito: acervo pessoal)

O empreendedorismo entrou na vida de Elaine Rosa como consequência de um processo de descoberta e aceitação de sua própria identidade. Em 2014, ela passava ao mesmo tempo por uma transição capilar e pelos ensinamentos e estímulos da Agência de Redes para Juventude. E o resultado dessa combinação foi a criação de um evento: a Feira Crespa – que terá sua décima edição neste sábado (11), na Arena Carioca Jovelina Pérola Negra – e posteriormente da produtora Rainha Crespa, que nasceu da necessidade da formalização de um negócio.

Jovem, 29 anos, negra e moradora da Pavuna, bairro do subúrbio do Rio de Janeiro, Elaine é formada em Produção Cultural. Em seu trabalho final da faculdade, ela abordou o tema do empreendedorismo entre as mulheres. E teve que fazer muitas reflexões, inclusive sobre o empreendedorismo de nicho, que é o que ela pratica. Além disso, por causa da transição capilar, começou a pensar em como as mulheres negras lidavam com a própria beleza.

Processo de aceitação

“Quando eu era criança, meus pais tinham um salão de beleza étnico, que não era nada comum na época. E mesmo assim, isso nunca foi um carro-chefe para mim. Já usei trança, alisei muito o cabelo. E usava muita química. Mas o meu cabelo não se adaptava e acabava caindo. E aí eu voltava para a trança, mas não tinha noção sobre nutrição dos fios. E em 2014 eu estava passando por esse momento de transição. E eu liguei para a minha tia, que tratava do meu cabelo desde quando eu era criança, mas ela não podia fazer as tranças. E aí eu tive o apoio do meu (hoje ex) marido, que me disse: ‘olha, o seu cabelo é isso, não é trança’. Isso era uma coisa muito mais presente na família dele. E nessa época uma sobrinha pequena dele estava lá em casa, me viu com o cabelo crespinho e disse: ‘nossa, seu cabelo está lindo!’. E aí eu comecei a aceitar”, conta Elaine.

O nascimento da Feira Crespa ocorreu por conta de todas as questões que Elaine vinha pensando. Elas foram digeridas dentro da metodologia aplicada pela Agência de Redes para a Juventude, para onde foi levada pelo seu ex-marido, a quem conheceu aos 17 anos de idade e com quem viveu por 11 anos.

“Passamos pelo ciclo de estímulos da Agência e pela metodologia que eles trazem. E no final eles premiavam um projeto para ganhar dez mil reais. O meu e o do meu marido na época foram aprovados. E junto com mais quatro jovens, criei a Feira Crespa”, conta Elaine.

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Eliane (de blusa branca) na Agência de Redes para Juventude

Eliane (de blusa branca) na Agência de Redes para Juventude (Crédito: acervo pessoal)

Feira de ideias

Um dos momentos do ciclo de estímulos da Agência era a chamada “feira de ideias”. E Elaine começou a perceber que as ideias relacionadas à estética se completavam. Era a Feira Crespa começando a sair do papel.

Ao lado de Milena Max, Estela Rany, Luciano Ribeiro e Tauana Cristina, Elaine começou a bolar o evento. E a ideia inicial era ambiciosa, mas o quarteto viu que os R$ 10 mil não seriam suficientes.

A ideia inicial era ter um portal, uma marca e a feira. Acabamos optando pela feira, onde a gente conseguiria falar de moda, de cabelo, de maquiagem e outras coisas que desejássemos

“Primeiro nós ganhamos esse dinheiro. Depois passamos por uma incubadora, para certificar de que estávamos aptos a gastar a quantia. E nesse segundo processo, nos falaram: dez mil não dá para fazer tudo o que vocês querem. A ideia inicial era ter um portal, uma marca e a feira. Acabamos optando pela feira, onde a gente conseguiria falar de moda, de cabelo, de maquiagem e outras coisas que desejássemos”, relembra Elaine.

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Ativismo social

A Feira Crespa trabalha em prol do incentivo à valorização da beleza das mulheres negras e de elementos da cultura afro-brasileira dentro território onde moram. No caso, a Pavuna. E no processo de pesquisa para a realização da primeira edição da feira, Elaine conta que muitas coisas foram a instigando.

“Nós fizemos um mapeamento porta a porta na Pavuna. Descobrimos que só tinha um salão afro no bairro. E quando eu entrevistei a dona, ela me disse: ‘quando eu quero ficar estilosa, eu faço trança. Mas quando eu quero ficar bonita, eu aliso o cabelo’. Eu fiquei olhando e não dei uma resposta para ela naquele momento. Respondemos com ação, e hoje a feira está aí”, diz a empreendedora.

Formalização do negócio

Pouco depois da consolidação da feira, Elaine sentiu a necessidade de se formalizar. Suas parceiras foram tomando cada uma seu rumo. E hoje restam ela e seu antigo tutor da agência, que é quem faz toda a parte de curadoria e pesquisa para o evento.

“Foi naquele momento que eu criei a Rainha Crespa, que garante experiências diferenciadas para famílias negras. A gente faz produção executiva para outros projetos. Temos a produção da feira, escrevemos editais para fora, fazemos cerimonial de casamento, sempre com esse viés. Tem que ser uma experiência boa para cliente e para quem está trabalhando. Temos um programa de geração de renda ainda não padrão e do mercado, mas que visa ajudar jovens que nos últimos anos ingressaram na universidade e não necessariamente querem seguir muito na vida acadêmica. Que buscam essa coisa da união com território, com a periferia. A gente tenta ser uma tecnologia social. Não digo que já somos. Ainda é uma empresa com fins lucrativos, mas que busca esse repertório e esse entendimento para o cliente”, descreve a produtora de eventos.

Palestras internacionais

No ano de 2015, o projeto deu um novo passo, iniciando ações na área educacional, com o Encontro da Crespa. A atividade ocorre nas escolas públicas e tem como proposta debater o lugar do negro na sociedade, ressignificando questões históricas e trazendo para a sala de aula diálogos sobre referências negras, o debate racial, a identidade negra, entre outras.

Diante de tamanho ativismo, Elaine foi convidada pela Agência de Redes a participar da Conferência PovGov 2015, realizada pela Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. Ela falou sobre o tema “Iniciativas educacionais e empreendedoras de suporte a jovens em área de violência”. No mesmo ano, participou também do Fórum Mundial Social, na Tunísia.

Microempreendedora Individual

A Rainha Crespa é uma produtora de eventos, que está enquadrada como MEI (Microempreendedor Individual). E para trabalhar nos eventos, Elaine tem um grupo de colaboradores de nove pessoas, que recebem uma ajuda de custo por prestação de serviço.

Segundo a empreendedora, separar a pessoa física da pessoa jurídica é uma meta a ser perseguida, até por conta de sua falta de experiência.

Hoje, além da Rainha Crespa, ela trabalho por conta própria, prestando outros serviços. E cita o ano de 2017 como o mais difícil em termos financeiros, pois teve que suprir algumas necessidades da empresa com seu dinheiro ganho como pessoa física.

Estou planejando de fazer um plantão com ele para organizar as contas desses primeiros meses do ano. Enfim, estou aprendendo a delegar isso e organizar

“Isso é um desafio para mim. Não sou gestora, sou produtora de formação. Tenho um colaborador que está tentando arrumar isso. Ele começou a me ajudar no ano passado, como gestor financeiro. Estou planejando de fazer um plantão com ele para organizar as contas desses primeiros meses do ano. Enfim, estou aprendendo a delegar isso e organizar. Mas é ele quem está assumindo mais. Porque acaba que eu faço muita coisa”, conta  a empreendedora.

Gestão do negócio

Elaine é não apenas a fundadora e principal organizadora da Feira Crespa. Ela também é DJ, sou apresentadora da feira e produtora. É ela quem faz pessoalmente o contato direto com os expositores, para captação.

“Eu tenho que ter um cuidado. É uma troca. Não é uma coisa mercadológica. É um outro tipo de relação com os expositores. A gente precisa criar um elo. A gente acredita que nesse contato a gente consegue aprimorar e fazer algo mais verdadeiro com as pessoas”, explica a produtora.

Entrada colaborativa

Depois de oito edições abertas ao público de forma gratuita, a Feira Crespa experimentou, na edição passada, um novo modelo. O evento continuou a ter a entrada liberada, mas ganhou status de colaborativo. Ou seja: o visitante entra, é recebido pelas recepcionistas e recebe um envelope. A pessoa recebe uma explicação sobre o caráter não lucrativo do evento e colabora com o valor que quiser no envelope.

“A feira não é mais de graça. Ela é colaborativa. Isso foi uma coisa que mudou e está dando certo, porque as pessoas entendem essa questão. Entendem que fazem parte disso. O lucro que eu tenho é muito pequeno, ainda. Ela não é autossustentável. E o nosso desafio é buscar cada vez menos financiamento público, para que a gente consiga ter um capital de giro que faça as coisas acontecerem elas por elas. Eu recebo o mesmo que todo mundo que trabalha na feira. Já fiz uma feira nesse esquema colaborativo e o retorno do público foi muito bacana. As pessoas doaram bastante”, revela Elaine.

Próximas edições

A produtora tem planos de fazer quatro edições da Feira Crespa na Pavuna em 2018, além de outras quatro em espaços diferentes da cidade, mantendo uma frequência de um evento a cada dois meses. Em média, a feira conta com cerca de 10 a 15 empreendedores.

A ideia era que as pessoas olhassem a Pavuna e mudassem o referencial de um lugar perigoso. De ser a última linha do metrô. Eu falo que é a primeira linha, porque muita gente sai daqui para trabalhar no Centro, na Zona Sul

“Procuramos não repetir a linguagem. Sempre colocar um produto diferenciado do outro. Tentamos fazer um mapa, temos uma cenógrafa que pensa nas cores, nos cheiros, que conduzam os clientes pelos espaços, da gastronomia, espaço da beleza, espaço de serviços, massagem para dreadlocks, tranças, acessórios, roupas, decoração, entre outras coisas”, diz a organizadora, que não abre mão da sua Pavuna: “a gente tenta ocupar a cidade. No início, a ideia era que as pessoas olhassem a Pavuna e mudassem o referencial de um lugar perigoso. De ser a última linha do metrô. Eu falo que é a primeira linha, porque muita gente sai daqui para trabalhar no Centro, na Zona Sul. Enfim, estamos abertos a convites para ocupar outros espaços da cidade. Mas a gente quer fortalecer, sim, o bairro”, completa.

Reflexão sobre empreendedorismo

O empreendedorismo, de acordo com Elaine, não é a solução para os problemas de uma pessoa pobre. Mas ela acredita que empreender pode ser um caminho para que outras portas se abram. E termina com uma reflexão:

“Aqui no Brasil, a gente empreende por necessidade. O brasileiro é empreendedor nato. Isso vem dos nossos ancestrais. E ultimamente, empreender se tornou uma coisa de sobrevivência. Eu não sou um modelo de sucesso, de negócio. Mas eu entendo que isso necessita de tempo. Estou há três anos empreendendo e sei que é um processo. A gente não acha que vai ficar rico. Mas sendo um espelho para outras pessoas, penso que eu posso achar caminhos. Não é fácil. É preciso muita resistência, muita paciência, muito estudo e muita vontade. A minha vontade se concretiza porque existe um impacto social. Que eu acredito que possa fazer a diferença para outras gerações empreenderem com mais facilidade. Eu acredito e consigo viver dessa forma. Então eu vou tocando a empresa e crescendo aos poucos, para que todas essas ações não morram”, finaliza Elaine.

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