Ex-jornalista vira empreendedor cultural em paraíso no Pará

Após se formar e ter dificuldades para arrumar emprego, Rodrigo Viellas mudou de profissão, de cidade e enveredou pelo caminho da produção cultural

Dona Onete e Rodrigo Viellas

Rodrigo e Dona Onete com o CD “Banzeiro”, autografado pela cantora e cuja direção artística foi assinada por ele (Crédito: acervo pessoal)

Os mais de três mil quilômetros que separam o Rio de Janeiro do Pará ficaram para trás há quase dez anos. E nesse tempo todo, se tem uma coisa que ex-jornalista Rodrigo Viellas não fez foi olhar para trás. Pelo contrário, seguiu em frente, embrenhando-se mato adentro, em busca de natureza, qualidade de vida e de trabalhar com o que gosta. Pouco depois de se formar em Comunicação Social, ele esbarrou pelo caminho com a profissão de produtor. Mudou de rumos, de cidade, caiu de amores por Belém e hoje mora na pequena e paradisíaca Alter do Chão. Para sobreviver, aposta no empreendedorismo cultural que vem exercitando desde que foi de mala e cuia para o Norte do país.

Tem sido compensador para mim, porque eu consigo trabalhar com o que eu quero, onde eu quero e do jeito que eu quero

“Empreender nunca é fácil. Empreender em cultura, então, é ainda mais difícil. Mas tem sido compensador para mim, porque eu consigo trabalhar com o que eu quero, onde eu quero e do jeito que eu quero. Se eu estivesse numa grande empresa, mesmo que fosse uma grande empresa da área cultural, eu não conseguiria fazer o que eu faço hoje. Então, acaba valendo a pena, apesar das incertezas, do pouco investimento governamental, das poucas linhas de crédito e da burocracia enorme que mesmo um MEI enfrenta. E olha que é a categoria mais fácil para se formalizar“, avalia o empreendedor.

Mercado difícil

Rodrigo fez jornalismo na Universidade Federal Fluminense, em Niterói (RJ), onde se formou em 2002. Já naquela época, teve dificuldades em achar emprego na área. Acabava pegando alguns trabalhos esporádicos que, muitas vezes, puxavam mais para publicidade e para o marketing.

Até que em 2005 foi parar em São Paulo, onde começou a trabalhar com produção, ao lado da banda Cordel do Fogo Encantado. E naquele momento o empreendedorismo começou a aflorar.

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“Apesar de eu não ter empreendido naquela hora. Foi ali que eu praticamente mudei de profissão”, conta Rodrigo.

Mudança de carreira

Meio que empurrado para a área de produção cultural, ele voltou para o Rio de Janeiro alguns anos depois para trabalhar na Globo.com, como produtor do programa Big Brother Brasil. Àquela altura, o jornalismo já havia ficado no passado.

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“As pessoas passaram a me enxergar mais como produtor. Fiquei lá por dois anos, entre 2008 e 2009. E trabalhei em outros projetos dentro da Globo. Mas eram sempre trabalhos temporários, que eles renovavam, o que já mostrava a precariedade do mercado nessa época”, diz o ex-jornalista.

Paixão por Belém

Em 2009, ele viajava o país num projeto para o Big Brother Brasil. Numa dessas viagens, foi parar em Belém, no Pará. Em apenas três dias de estadia, caiu de amores pela cidade. E num almoço com uma amiga que conheceu em São Paulo, residente da Capital Paraense, deu o primeiro passo para a maior guinada de sua vida.

Eu estava de saco cheio do Rio de Janeiro. Não aguentava mais aquela violência e trabalhar numa empresa grande

“Nunca tinha ido para Belém e eu de fato me apaixonei pela cidade. Foi como se eu tivesse chegado em outro país, com outra cultura. Um lugar com pessoas com as quais eu me assemelhava, até mais do que o Rio de Janeiro, onde eu nasci, fui criado e passei boa parte da minha vida. Foi amor à primeira vista, mesmo. E num almoço com essa amiga, que na época trabalhava no governo do estado, eu disse que tinha gostado muito de lá e que se ela soubesse de alguma oportunidade pela cidade eu me mudaria para lá. Eu estava de saco cheio do Rio de Janeiro. Não aguentava mais aquela violência e trabalhar numa empresa grande como a Globo”, revela o produtor cultural.

Uma semana depois do almoço em Belém, Rodrigo seguia viagem por outras cidades no projeto do BBB quando recebeu uma ligação da amiga. Uma vaga numa produtora de vídeos que prestava serviços para o governo do estado do Pará acabara de aparecer. O salário não era dos melhores, mas ela perguntou se ele toparia.

Adeus, Rio de Janeiro!

“Eu topei na hora. Achei que seria uma boa oportunidade de sair do eixo Rio-São Paulo. Ir para o Norte era completamente desconhecido para mim e ao mesmo tempo encantador. Pedi demissão no meio do Big Brother e fui”, conta Rodrigo.

Durante dois anos, Rodrigo foi produtor e assistente de direção do Revista Pará, um programa do governo do estado que ia ao ar na TV pública local. E nesse período, teve a chance de conhecer várias cidades e se encantar ainda mais pelas belezas e pela cultura paraenses.

“O Pará é muito grande, tem cento e quarenta municípios, boa parte da Amazônia, grandes rios, uma bacia hidrográfica enorme, um grande litoral, uma cultura muito rica e muito vasta. E muito desconhecida da maioria dos brasileiros. Fiquei dois anos trabalhando nessa empresa, muito para o governo do estado. E depois em campanhas políticas. Mas quando terminaram as campanhas, não tinha mais sentido eu ficar a produtora”, diz o produtor.

A primeira empresa

E foi então que, em 2011, a veia do empreendedorismo saltou de vez. Como circulava muito na área cultural de Belém, e também por ter trabalhado com o Cordel do Fogo Encantado, Rodrigo recebeu um convite para entrar de sócio numa produtora. Ao lado de dois profissionais locais, o também produtor cultural Marcel Arêde e a jornalista Viviane Chaves, abriu a AmpliCriativa Produções.

“A gente montou uma empresa do zero. Chegamos a fazer um plano de negócios, mas nem me lembro se seguimos. Não tínhamos capital nenhum. A gente só tinha um bom conhecimento da área e uma aposta de que aquilo renderia um caldo. Fomos a primeira produtora de Belém a trabalhar com agenciamento de artistas. E de cara pegamos a Gaby Amarantos, além de alguns outros projetos com outros artistas do Pará. A Gaby ainda nem tinha estourado, mas a gente achava que era um grande produto. Nós três saímos de nossos empregos e fomos apostar nessas empresas. Mas com menos de um ano, perdemos todos os nossos clientes”, revela o empreendedor.

Rodrigo, Viviane e Marcel

Rodrigo (à esq,.) com os ex-sócios Viviane e Marcel (Crédito: acervo pessoal)

Momento decisivo

De acordo com o Rodrigo, fechar a empresa teria sido a solução mais fácil. Mas os sócios resolveram acreditar no trabalho e apostar no resto da produção cultural de Belém e do Pará. E a aposta se mostrou acertada.

O objetivo do trio ao montar a empresa era atender uma já crescente produção cultural que se formava em Belém. Na AmpliCriativa, onde ficou por seis anos, Rodrigo trabalhou com gerenciamento de artistas, produção de CDs e DVDs, além de festivais de música e outros eventos.

Ex-jornalista vira empreendedor cultural em paraíso no Pará
Rodrigo trabalhou com vários artistas paraenses. Veja alguns deles na sequência da galeria (Crédito: Instagram)
Ex-jornalista vira empreendedor cultural em paraíso no Pará
Gaby Amarantos (Crédito: Instagram)
Ex-jornalista vira empreendedor cultural em paraíso no Pará
Dona Onete (Crédito: Instagram)
Ex-jornalista vira empreendedor cultural em paraíso no Pará
Gang do Eletro (Crédito: Instagram)
Ex-jornalista vira empreendedor cultural em paraíso no Pará
Strobo (Crédito: Instagram)
Ex-jornalista vira empreendedor cultural em paraíso no Pará
Camila Honda (Crédito: Instagram)
Ex-jornalista vira empreendedor cultural em paraíso no Pará
Juliana Sinimbú (Crédito: Instagram)

Especializada em projetos culturais e leis de incentivo, a empresa de Rodrigo e seus dois sócios se beneficiou da falta de profissionalização da cena cultural de Belém na época. A oferta de artistas era muito rica, mas haviam poucos produtores, que, por sua vez, não se formalizavam.

A cultura tem que ser enxergada como uma área que gera renda, empregos e riquezas para o país

“O foco era trabalhar com projetos culturas via leis de incentivo. Hoje em dia são poucas as gravadoras que investem nos artistas. Esse papel passou para as empresas, que não colocam o dinheiro diretamente, mas investem via leis de incentivo, para terem as isenções fiscais”, diz Rodrigo, que aproveita para deixar um recado para grandes empresas e governantes: “a cultura tem que ser enxergada como uma área que gera renda, empregos e riquezas para o país. Sem contar a própria riqueza cultural, que é o mais importante e imensurável. Mas ela tem um lado que pode, sim, ser precificado. E que só não dá mais lucros porque há poucos investimentos. O que a gente tenta, com esses tipos de projeto, é trazer um pouco de dinheiro das empresas para a área das artes e da cultura”.

Referências na cultura paraense

Com o tempo, apesar de se tratar de uma microempresa, os três sócios conseguiram montar um escritório bem estruturado, onde chegaram a ter cinco funcionários com carteira assinada. Eram os maiores do ramo em Belém. E para uma produtora do meio cultural, que trabalha com artistas bem específicos, de nicho, dá para dizer inclusive que eram relativamente grandes no país inteiro.

“A gente conseguiu fazer um bom trabalho em Belém. Fomos meio que pioneiros, não apenas na produção, mas na profissionalização desse esse mercado. A gente de fato criou a demanda. Não é falta de humildade, não. Eu tenho noção do que eu, meus sócios e algumas outras pessoas que trabalharam na mesma época fizemos pela cena de Belém”, orgulha-se o produtor.

A cliente preferida

Além de nomes de grandes artistas nascidos no Pará, como Gaby Amaranto e Gang do Eletro, uma das carreiras impulsionadas pelo trabalho da empresa foi a da cantora Dona Onete, a “Diva do Carimbó”. Ela lançou seu primeiro CD em 2012, aos 72 anos de idade, com produção executiva de Rodrigo, e hoje é considerada um dos maiores patrimônios da cultura do estado.

“A Dona Onete é o meu xodozinho. É uma cantora que eu peguei no colo e comecei a trabalhar ainda em 2011. Ela tinha setenta e dois anos na época e gravava seu primeiro CD. Pegamos a produção executiva desse CD e logo depois assumimos o agenciamento de carreira dela. E ela foi uma aposta. Não dava dinheiro, mas era meio que o nosso trabalho social. A gente precisava ficar com ela, porque ela é um patrimônio do estado do Pará. Começamos a gerir a carreira dela com um parceiro do Rio de Janeiro que vende shows. E a escrever projetos, que fomos aprovando. Hoje ela é a figura mais conhecida do Pará. Faz show no Brasil inteiro, na Europa, Estados Unidos. Está indo agora para o Leste Europeu. Teve uma música gravada pela Daniela Mercury, a ‘Banzeiro’, que foi eleita a música do Carnaval da Bahia este ano. E tudo isso veio por meio de projetos de leis de incentivo. É esse o tipo de coisa que mostra a importância dos governos e das empresas para fomentar a cultura brasileira”, conta orgulhoso o produtor.

Opção pessoal

Após seis anos como sócio da produtora, “empreendendo e passando por muitas reviravoltas”, Rodrigo decidiu, em janeiro de 2017, sair da sociedade e se mudar para Alter do Chão, uma pequena vila de seis mil habitantes que é distrito do município de Santarém, o terceiro mais populoso do Pará.

Do centro de Santarém, que fica a 40 minutos de Alter do Chão, Rodrigo tem acesso a voos diários para Belém e para Brasília. Isso possibilita que, mesmo no meio da Amazônia, ele fique a pouco mais de uma hora de avião da capital do estado e a duas horas da capital do país. Assim, consegue morar no interior e ter rápido acesso a um grande centro, caso necessite.

“Escolhi Alter do Chão para morar. Aqui é um paraíso. A gente nada numa praia de rio com águas quentes e areia branca. É belíssimo. Eu queria morar num lugar menor, ter mais qualidade de vida, ter contato com a natureza e de fato sair de um grande centro. Aqui eu consigo ter isso e, ao mesmo tempo, tenho a possibilidade de trabalhar com o que eu quero. Foi uma escolha pessoal, mesmo”, celebra o ex-jornalista.

Alter do Chão, o local que Rodrigo escolheu para viver

Alter do Chão, o local que Rodrigo escolheu para viver (Crédito: acervo pessoal)

Recomeçando do zero

E a nova mudança radical na vida de Rodrigo foi consciente. Ele escolheu Alter do Chão para morar sabendo que, novamente, teria que criar demanda. Porque se em Belém a produção cultural feita de maneira profissional já não é tão grande, e o que tem hoje é muito por conta do que ele seus antigos sócios fizeram, ele sabia que lá teria que recomeçar do zero.

Mesmo pequena, Alter do Chão é um lugar cosmopolita, onde moram pessoas de vários lugares do Brasil e do mundo, além de muitos indígenas da tribo Borari, que povoavam a região e estão lá até hoje. A vila recebe muitos turistas e isso acaba movimentando economicamente o local.

Formalização como MEI

“Esses dias, por exemplo, tem um cruzeiro enorme atracado na região, vindo direto da Europa. Enfim, tenho trabalhado muito com cultura na vila e com turismo. Quando eu saí da outra empresa, eu abri uma MEI. Para ter um certo nível de formalização no mercado. Assim eu consigo prestar serviços para algumas ONGs daqui, para a prefeitura e para o governo do estado. Mesmo que você seja autônomo, seja freelancer, acho importante ter essa formalização”, avalia o empreendedor.

Rodrigo confessa que talvez nunca tenha sonhado em empreender. Mas admite que, depois que começou, gostou tanto da experiência que não pensa mais em viver a vida de outra forma.

“Não é para qualquer pessoa. Mas não sei se eu gostaria de voltar a ser empregado de uma empresa. Prefiro empreender, trabalhar no meu próprio negócio e fazer o que eu quero. Meu escritório fica na minha casa e tenho uma conta de pessoa jurídica. Não sou o contador, mas sou o administrador da minha própria empresa. E para mim tem funcionado. É legal porque eu consigo morar numa cidade pequena. Deus me livre voltar para o Rio de Janeiro e passar por uma intervenção militar e outras coisas. O que eu gosto é de ficar por aqui mesmo”, finaliza o produtor.

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