Autora une engajamento e literatura em negócio de sucesso

Conheça a jovem Janine Rodrigues, uma autora do Rio de Janeiro que criou uma editora para vender os seus próprios livros

O amor pela literatura, a facilidade de lidar com pessoas e uma disciplina quase militar formaram a equação responsável por fazer aflorar o empreendedorismo na carioca Janine Rodrigues. Nos últimos quatro anos, ela resolveu mudar os rumos de sua vida. E hoje, com apenas 36 anos de idade, é autora de quatro livros infantis, está com o quinto a caminho e, para ter o total controle sobre sua obra, abriu a própria editora, a Piraporiando.

“A grande dificuldade da literatura é estar em locais para vender seu livro. Livrarias levam cinquenta por cento do valor e seu livro fica escondido em meio a vários. São poucas as livrarias que têm respeito pelo autor. Além disso, viver de dez por cento dos direitos autorais era algo impossível. Então eu pensei: preciso ter autonomia”, diz Janine, sobre o momento em que decidiu criar seu próprio negócio.

O primeiro livro

Capa de "No Reino da Pirapora", primeiro livro de Janine Rodrigues

Capa de “No Reino da Pirapora”, primeiro livro de Janine Rodrigues (Crédito: Piraporiando)

Os livros estão na vida de Janine desde a alfabetização. E ela é apaixonada, especialmente, por Ziraldo, Tolstói, Paulo Freire e Mauricio de Souza. Mas a ideia de publicar seu próprio material só se materializou em 2013, quando decidiu procurar editoras para lançar sua história, escrita quando era apenas uma criança. Nascia “No Reino da Pirapora“, seu primeiro livro.

“Foi mais por realização pessoal. Escrevi essa história quando tinha entre oito e nove anos de idade. Para isso, procurei uma editora pequena. No dia do lançamento do livro, fizemos atividades e contação de histórias. Uma professora estava nesse evento e me chamou para visitar a escola dela. E foi muito legal, pois ela me convidou para ajudá-la num projeto”, lembra a autora.

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Na época do lançamento do livro, Janine trabalhava na Ecology, uma empresa de consultoria ambiental. Formada em Gestão Ambiental com especialização socioambiental, ela também tem especialização em Produção Cultural e em Educação Infantil. Antes da Ecology, seu último emprego, passara por estágios em grandes empresas, como Petrobras e Furnas, sempre na área ambiental.

“Fiquei dois anos na Ecology e eles foram grandes incentivadores dessa minha mudança. Após lançar o livro, pedi para eles me mandarem embora. Fizemos um acordo e o dinheiro que recebi me ajudou demais a dar esses primeiros passos até abrir a Piraporiando”, revela a empreendedora.

Propaganda é a alma do negócio

Quando ainda não tinha o próprio negócio e seus livros faziam parte do catálogo de uma editora pequena, Janine batalhava e corria atrás para promover suas obras, muitas vezes colocando recursos do próprio bolso.

Sempre tive muito o perfil de mostrar meu trabalho. E muita facilidade de mapear oportunidades. Fiz muitas coisas gratuitas onde, no fim das contas, acabava conseguindo vender o meu livro” conta.

Capa do livro As Duas Bonecas Azuis

Capa do segundo livro da autora Janine Rodrigues. “As Duas Bonecas Azuis” (Crédito: Piraporiando)

Em 2014, Janine publicou seu segundo livro, em português e espanhol, com uma editora da Europa. “As Duas Bonecas Azuis” teve ilustrações de Bruna Assis Brasil, uma das mais conceituadas do ramo da literatura infantil no país.

“Ela é muito respeitada, premiadíssima, já foi indicada ao Prêmio Jabuti. Desde quando conheci o trabalho dela, queria muito que ela ilustrasse um dos meus livros, mas não tinha condições de pagá-la. Mas fui atrás, conversei com ela, contei a minha história e perguntei o que ela poderia fazer financeiramente. Ela entendeu que a editora que eu estava na época não tinha como pagar. E acabou sendo uma mega parceira, quase uma patrocinadora. Quis apostar e sou eternamente grata”, relembra Janine.

A essa altura, a Piraporiando já existia mais como uma produtora cultural. E os eventos promovidos pela autora serviam para a venda de seus livros. Mas Janine resolveu que a empresa passaria também a ter a atividade de editora. Pensou em fazer alguns cursos sobre mercado editorial, mas não tinha condições financeiras. Começou, então, a estudar por conta própria pela internet e a conversar com alguns amigos da área, ou que tinham intimidade com a área.

“E assim surgiu a Piraporiando. Suspendi o contrato com as editoras onde eu estava e trouxe os meus livros para a minha editora. Foi um processo muito tranquilo. Elas entenderam que eu praticamente fazia todo o trabalho para a venda dos meus livros. Eu divulgava, mandava as minhas sugestões de pauta para a imprensa e trabalhava de dez a doze horas por dia em feiras e outros eventos”, conta Janine.

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Segundo a fundadora, a Piraporiando foca em quatro pilares: o brincar, a infância, a literatura, a educação e a valorização da diversidade. A editora faz parte da Rede Nacional Primeira Infância, uma articulação nacional que envolve governos, setor privado e outras redes e organizações multilaterais que atuam pela promoção e garantia dos direitos da Primeira Infância, sem discriminação étnico-racial, de gênero, regional, religiosa, ideológica, partidária, econômica, de orientação sexual ou de qualquer outra natureza.

Investimento inicial da autora

Para dar o pontapé inicial na empresa, Janine gastou cerca de R$ 10 mil. E contou com a ajuda de uma incubadora para ganhar fôlego no início da operação.

“Na verdade eu investi muito pouco, considerando que o livro é um produto caro. Um trabalho de ilustrador para um livro infantil está em torno de seis mil reais. Um projeto gráfico está na mesma faixa. Com os meus primeiros livros eu tive um custo menor, porque eles já vieram prontos de outra editora. Além disso, fiquei no Rio Criativo, uma incubadora, onde eu não pagava aluguel de salas. Além disso tinha consultoria. Quando precisei de contador, tive de graça por lá, entre outras coisas”, revela a empreendedora, que segue uma filosofia ousada: “não dá para começar só quando tiver o ótimo. Tem que começar com o bom”.

Negócio de sucesso

A estrutura da Piraporiando é muito enxuta. A editora funciona num escritório no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, e tem apenas duas funcionárias. O ano de 2017 foi o último da empresa como MEI, pois o faturamento estourou o teto para um Microempreendedor Individual, que era de R$ 60 mil e em 2018 passa para R$ 81 mil anuais.

“Neste ano de 2018 já passamos a ser uma microempresa e a funcionar no Simples. Essa questão de ser MEI proporcionou para a gente uma coisa muito engraçada, pois conseguimos muitos clientes grandes ao longo desse tempo. E quando viam que a nossa nota fiscal era de MEI, as instituições que nos contratavam custavam a acreditar. Fazemos muitas coisas grandes para o nosso tamanho. Mas temos um nível de organização que nos permite isso”, celebra Janine.

Janine, dona do negócio de sucesso Piraporiando

Em 2017, a editora de Janine extrapolou em mais de cinco vezes o teto do MEI (Crédito: divulgação)

Estratégia para entrar no mercado

A Piraporiando foi crescendo de acordo com as oportunidades identificadas ou criadas por Janine, que confessa não ter feito um grande planejamento antes de abrir a empresa.

“Nas passagens que tive por outras editoras, vi as oportunidades, porque eu já estava vendendo meus livros. Então, eu testei, mandei apresentações do meu livro para instituições, banquei participações em eventos do meu bolso. O planejamento que eu fiz, na verdade, foi muito básico. Foi uma planilha de Excell. Particularmente, eu não acredito muito num plano de negócios com uma pilha de texto que não é funcional. No meu caso, foquei no que eu precisava: vender meus livros. E aí comecei só no Rio de Janeiro me fortaleci, criei portfólio, fui tendo mais estoque e depois fui para outros estados”, revela a empresária.

No levantamento mais recente que fez, Janine identificou que seus livros já haviam sido adotados por 30 escolas em 16 estados do país, com o total em torno de 10 mil unidades vendidas de seus quatro livros.

Além dos livros, a editora costuma realizar eventos, como workshops e oficinas para educadores, contação de histórias, oficinas lúdico educativas e diálogos inspiradores com crianças.  E junto da loja virtual no site, esses eventos são oportunidades que a Piraporiando tem de falar diretamente com seu público consumidor e vender seus livros.

“É uma coisa que começou até primeiro do que o livro, mas o intuito desse tipo de trabalho é vender os produtos. O serviço é mais um meio. Este ano, por exemplo, fomos uma das editoras oficiais da Feira Literária de Paraty (FLIP). Só para lá levamos mil livros”, conta a empreendedora.

Além de “No Reino da Pirapora” e de “As Duas Bonecas Azuis”, que virou peça de teatro, a autora lançou “Histórias do Velho Nestor”, “Contos Piraporianos” (clique aqui para ver o vídeo início da matéria) e “Nuang – caminhos da liberdade”, lançado em 2018.

Capa de "Histórias do Velho Nestor", o terceiro livro de Janine Rodrigues

Capa de “Histórias do Velho Nestor”, o terceiro livro de Janine Rodrigues (Crédito: Piraporiando)

Sem espaço para o preconceito

Jovem, mulher e negra, Janine reúne, ao mesmo tempo, três características de pessoas que sofrem preconceito. O jovem, muitas vezes, é desacreditado em relação a seu potencial produtivo; a mulher sofre com o machismo; e, ao mesmo tempo, o racismo é uma triste realidade no país. Mas as bases de sua criação, tanto na infância quanto na adolescência, foram suficientes para que ela construísse pilares fortes o bastante para se manter de pé diante desse tipo de adversidade.

“Meu pai morreu quando eu era pequena,  mas eu lembro muito de ensinamentos que ele me passou. Ele sempre deixou claro que, pelo fato de eu ser mulher e negra, a vida seria mais difícil para mim. Mas na minha casa sempre fomos muito preparados para as dificuldades que poderíamos enfrentar. Nos lugares onde estudamos, sempre tivemos muito contato com uma ampla vida cultural. Sempre ouvimos muita música, sempre gostamos muito de cinema. E essa visão mais abrangente do mundo nos ajudou a não ficarmos bitolados. Por isso, essa coisa do preconceito nunca me pegou muito de surpresa”, conta Janine.

Filha de um oficial da Marinha, Janine passou a infância numa chácara na pequena Cardoso Moreira, cidade vizinha a Campos, no Norte Fluminense. Aos nove anos, após a morte de seu pai, passou a morar na cidade do Rio de Janeiro.

“Quando meu pai morreu, minha mãe achou que seria melhor a gente vir morar no Rio de Janeiro, onde teríamos mais oportunidades de escola. Fui estudar na Fundação Osório, um colégio militar. E escolhi ficar o meu primeiro ano em internato. Entrava na segunda-feira e minha mãe ia me buscar na sexta. Foi um período de grande aprendizado. E o tipo de disciplina que aprendi lá me ajudou no meu empreendedorismo”, revela Janine.

Apesar de ser filha de um oficial da Marinha e de ter estudado onde estudou, Janine não carrega consigo a rigidez militar.

“Na verdade existe um certo mito em torno dos militares. É claro que algumas coisa são verdadeiras, como o preconceito contra homossexuais e o machismo, que não necessariamente cabem a todos os militares. Não posso generalizar. Mas essas coisas que me incomodavam e até hoje incomodam muito. Mas na escola a gente tinha aulas de música, de artes plásticas, de canto, visitava museus. Eu sempre soube peneirar muita coisa que eu não gosto dessa convivência militar. E acho que acabei tirando mais coisas boas do que ruins”, avalia a autora.

O futuro do negócio

Em 2018, a editora já lançou o curta de animação “O Filho do Vento” e também o quinto livro de Janine, “Nuang – caminhos da liberdade”. A autora fala de alguns planos que tem para o futuro.

“Eu tenho muita vontade de misturar literatura com audiovisual. A arte transversalizada só tende a crescer. E a gente está cada vez mais buscando convergir as artes”, finaliza Janine.

E você, já leu algum livro da Piraporiando para seus filhos? Costuma consumir livros infantis? Mande esta matéria para seus amigos com crianças!